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Autor: William Shakespeare 
Traduo: Carlos A. Nunes 
Edio eletrnica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org) 
A FAMOSA HISTRIA DA VIDA DO REI HENRIQUE 
VIII 
WILLIAM SHAKESPEARE 
NDICE 
PERSONAGENS 
PRLOGO 
ATO I 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
ATO II 
Cena I
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
ATO III 
Cena I 
Cena II 
ATO IV 
Cena I 
Cena II 
ATO V 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
Cena V 
EPLOGO 
PERSONAGENS 
O REI HENRIQUE VIII. 
CARDEAL WOLSEY. 
CARDEAL CAMPEIO. 
CAPCIO, embaixador do imperador Carlos V. 
CRANMER, Arcebispo de Canturia. 
DUQUE DE NORFOLK. 
DUQUE DE SUFFOLK. 
DUQUE DE BUCKINGHAM. 
CONDE DE SURREY. 
LORDE CHANCELER. 
LORDE CAMAREIRO.
GARDINER, Bispo de Winchester. 
BISPO DE LINCOLN. 
LORDE ABERGAVENNY. 
LORDE SANDS. 
SIR TOMAS LOVELL. 
SIR HENRIQUE GUILDFORD. 
SIR ANTNIO DENNY. 
SIR NICOLAU VAUX. 
Secretrios de Wolsey. 
CROMWELL, criado de Wolsey. 
GRIFFITH, gentil-homem da cmara da Rainha Catarina. 
Trs gentis-homens. 
Oficial da Ordem da Jarreteira. 
Doutor Butts, mdico do rei. 
Intendente do Duque de Buckingham. 
Brandon e um sargento de armas. 
Porteiro da Cmara do Conselho. 
Porteiro e seu ajudante. 
Pajem de Gardiner. 
Pregoeiro. 
RAINHA CATARINA, esposa do Rei Henrique; depois, divorciada dele. 
ANA BOLENA, sua dama de honra; depois, rainha. 
Uma velha dama, amiga de Ana Bolena. 
PACINCIA, dama da Rainha Catarina. 
Nobres e damas; criadas da rainha; espritos que lhe aparecem; escrives, oficiais, guardas e outros 
servidores. 
PRLOGO 
Hoje no venho provocar-vos riso. Cenas agora de mais peso e siso, srias, graves e tristes, 
imponentes e nobres quadros, que vos ho de ardentes lgrimas arrancar  o que em verdade viemos aqui 
trazer. Quem de piedade for capaz, pode dar  nossa pea uma lgrima ou duas, porque ela essa 
homenagem merece. Quem dinheiro s despende em assunto verdadeiro, nela achar verdade. Quem se 
alegra com uma ou duas vistas e, de regra, no regateia aplausos, se paciente se revelar e calmo, h de, 
contente, multiplicar o seu vintm modesto num rpido espetculo e em tudo honesto. Somente quem 
deleite acha na vista de cena alegre ou torpe, e que imprevista barulheira agradece, golpes, duelo de 
algum tipo vestido de amarelo, ser decepcionado. Pois, de fato, gentis ouvintes, por um pugilato, fazer 
entrar um bobo numa peca, no seria faltar, to-s, a promessa de nosso prprio crdito, no intento de 
vos representar algo a contento, mas tambm alienar para o futuro de um amigo sensato o afeto puro. Em 
nome, pois, do cu, por serdes tido na conta do auditrio mais sabido, do mais esclarecido da cidade, 
mostrai, como o desejo, gravidade: imaginai na forma mais notria as pessoas de nossa nobre histria, tal 
como em vida foram. Na grandeza prpria as acompanhai, na mais acesa companhia de tantos 
seguidores, turba anelante que enche os corredores. Mas vede agora como a cena sria vai bater 
tristemente na misria, e vos direi, se rirdes um momento, que  possvel chorar num casamento. 
ATO I
CENA I 
Londres. Na antecmara do palcio. Entra por uma porta o Duque de Norfolk; por outra, o Duque de 
Buckingham e Lorde Abergavenny. 
BUCKINGHAM - Feliz encontro e venturoso dia. Como passastes desde que nos vimos ultimamente 
em Frana? 
NORFOLK - A Vossa Graa muito agradeo. Com sade, e sempre admirador de quanto vi por l. 
BUCKINGHAM - Um acesso de febre inoportuna me fez ficar no quarto prisioneiro, quando esses 
sis da glria, luminares da humanidade, em Ardres se encontraram. 
NORFOLK - Foi entre Guines e Ardres. Eu me achava presente e os vi saudarem-se a cavalo; 
contemplei-os depois, quando se apearam, e abraarem-se os vi de tal maneira, como se confundidos 
estivessem. E se assim fosse, mesmo, onde acharamos quatro tronos que, postos na balana, 
eqivalessem a esse trono duplo? 
BUCKINGHAM - Todo esse tempo eu prisioneiro estava no meu quarto de doente. 
NORFOLK - Ento perdestes a viso do que a terra tem de grande. Poder-se-ia dizer que at aquela 
hora solteira estava a pompa e que nesse ato com algo se casou acima dela. Cada dia vencia os anteriores, 
at que chegasse o ltimo e deixasse como prprio o prodgio deles todos. Quando os franceses, somente 
ouro e brilho, como deuses pagos nos ofuscavam, no dia imediato ns fazamos da Gr-Bretanha a 
ndia: qualquer homem que se alasse, uma mina parecia. Os anezinhos pajens dir-se-iam querubins, 
todos de ouro; as prprias damas, no afeitas  lida, quase suavam sob o peso do orgulho, de tal forma 
que o trabalho de enfeite lhes servia. Se qualquer mascarada se dissesse incomparvel, a da subseqente 
noite a deixava estpida e mendiga. Cada um dos dois monarcas, de igual lustre, mais ou menos brilhante 
se ostentava, conforme aparecesse. Era louvado de per si qualquer deles; quando juntos, dizia-se que um 
s se percebia, no se atrevendo os prprios entendidos a confront-los nunca, que esses astros - pois 
assim lhes chamavam - desafiavam, por seus arautos, para as altas justas seus espritos nobres, 
realizavam feitos alm de quanto  concebvel, de tal forma que as fbulas de antanho, como possveis 
tendo-se afirmado, ganharam novo crdito, levando-nos a ter por certo o que nos conta Bevis. 
BUCKINGHAM - Oh! ides muito longe. 
NORFOLK - To verdade como em ser nobre e a honestidade na honra procurar sempre: os 
diferentes lances dessa festa algum brilho perderiam nos mais altos discursos, pois para eles a melhor 
lngua era dos prprios feitos. Tudo ali era real; nenhuma parte colidia com outra; a ordem fazia ressaltar 
tudo, executando todas as funes seu papel  maravilha. 
BUCKINGHAM - Quem dirigiu, pergunto, quem, segundo vossa opinio, reuniu o corpo e os 
membros dessa esplndida festa? 
NORFOLK - Algum, decerto, que inclinao nenhuma demonstrara para um negcio desses. 
BUCKINGHAM - Por obsquio, milorde, quem fez isso? 
NORFOLK - Regulado foi tudo pelo engenho extraordinrio do muito reverendo Cardeal de York. 
BUCKINGHAM - O diabo que o carregue! Em todo bolo mete o dedo ambicioso. Que tinha ele que 
ver com tanto excesso de vaidade? Espanto-me de ver que uma montanha de sebo, s com seu volume, 
possa os raios absorver do sol benfico e da terra desvi-los. 
NORFOLK - Certamente, senhor, h nele estofo que assegura to grande resultado, pois o apoio no 
tendo de linhagem mui notria, cujo prestgio abre caminho aos netos, nem havendo prestado altos 
servios  coroa, nem tendo como aliadas pessoas de valor, mas, como a aranha que de si prpria tece a 
fina teia, prova que  a fora de seu prprio mrito que lhe franqueia a estrada, dom celeste que um lugar
lhe assegura junto ao trono. 
ABERGAVENNY - O que lhe deu o cu, no sei diz-lo; que olhar mais penetrante isso descubra. 
Mas seu orgulho posso ver, que espia por todos os seus traos. De onde o obteve? Se no do inferno,  
que  mesquinho o diabo, ou j deu quanto tinha, e ele outro inferno dentro de si se ps a criar de novo. 
BUCKINGHAM - Nessa excurso de Frana, por que diabo chamou a si o encargo,  revelia do rei, 
de designar os que deviam constituir seu sqito? Ele mesmo a lista preparou dos gentis-homens, de 
maneira geral s escolhendo os a que ele pretende impor um fardo muito grande para honra secundria. 
Uma simples cartinha de seu punho - sem consulta ao Conselho generoso - faz do destinatrio auxiliar 
dele. 
ABERGAVENNY - Sei de parentes meus - trs, nesse caso, pelo menos, se encontram - que com 
isso de tal modo esgotaram seus haveres, que jamais podero voltar ao prstino bem-estar da famlia. 
BUCKINGHAM - Oh! muita gente teve a espinha quebrada pelo peso de suas propriedades, s para 
irem nessa imponente viagem. Tanta mostra de vaidade, no entanto, to-somente serviu para animar 
umas conversas de consistncia nula. 
NORFOLK -  pesaroso que eu penso que essa paz entre os franceses e ns no vale quanto nos 
custou. 
BUCKINGHAM - No houve quem, depois da tempestade que veio logo aps, no se sentisse como 
inspirado e, sem consulta prvia, no fizesse, de pronto, a profecia de que essa tempestade, assim tirando 
da paz o tnue vu, s pressagiava sua ruptura sbita. 
NORFOLK -  bem claro, pois j quebrou a Frana o compromisso e embargou em Bordus a carga 
toda de nossos mercadores. 
ABERGAVENNY - Foi por isso que nosso embaixador foi despedido? 
NORFOLK - Sim, sem dvida alguma. 
ABERGAVENNY - Belo pacto, comprado por um preo exorbitante. 
BUCKINGHAM - E todo esse negcio, dirigido foi por nosso cardeal mui reverendo. 
NORFOLK - Perdoe-me Vossa Graa, todo o Estado conhecimento tem da desavena que entre vs 
e o cardeal h muito existe. Assim, vos aconselho - e aceitai isto de um corao que vos deseja apenas 
honra e prosperidade muito slida - considerardes como equivalentes o poder do cardeal e sua astcia; e 
mais: que a tudo quanto seu grande dio deseje pr em prtica, no h de faltar nunca o instrumento 
sempre a jeito. No ignorais a natureza dele; sabeis que  vingativo, e eu tenho cincia de que sua espada 
 de mui fino corte. E comprida; podemos dizer, mesmo, que alcana longe; e onde atingir no possa, 
decidido ele a joga. No imo peito guardai este conselho, pois haveis de ach-lo salutar. Eis que vem 
vindo a rocha que evitar vos aconselho. 
(Entra o Cardeal Wolsey; a bolsa  trazida na sua frente; alguns guardas e dois secretrios com papis 
o seguem. De passagem, o cardeal e Buckingham trocam olhares desdenhosos.) 
WOLSEY - Ol! O processo do inspetor do Duque de Buckingham est ai? 
PRIMEIRO SECRETARIO - Aqui se encontra, senhor. 
WOLSEY - E ele est pronto, pessoalmente? 
PRIMEIRO SECRETARIO - Sim, quando a Vossa Graa for servido. 
WOLSEY - Bem; depois trataremos desse assunto. Buckingham vai baixar o olhar altivo. 
(Sai Wolsey com seu squito.) 
BUCKINGHAM - Esse co de aougueiro tem a boca venenosa e eu no posso amorda-la. Assim, 
no despert-lo  aconselhvel. O livro do mendigo tem vantagem sobre o sangue de um nobre. 
NORFOLK - Como assim! Ficastes exaltado?  conveniente pedir a Deus moderao, que  o nico 
remdio que reclama vossa doena. 
BUCKINGHAM - Li algo contra mim nos olhos dele. Seu olhar me humilhou, como ao mais nfimo
dos servos, e ora mesmo me traspassa traioeiramente. Foi falar com o rei; sigo-lhe j no encalo, para os 
olhos obrig-lo a baixar. 
NORFOLK - Parai, milorde, e que vossa razo com vossa clera se ponha a discutir sobre esse 
intento. Quem altos montes galga, de comeo progride lentamente. A zanga  como um cavalo ardoroso 
que, podendo seguir por onde queira, o prprio fogo logo o deixa cansado. Na Inglaterra no h quem 
poderia aconselhar-me como vs; sede pois para vs mesmo o que sereis para vosso amigo. 
BUCKINGHAM - Vou procurar o rei, e pela boca da honra aos gritos farei que a empfia desse tipo 
de Ipswich ao p lanada seja; se no, proclamarei que se anularam todas as diferenas entre os homens. 
NORFOLK - Sede sensato, no deixando quente por demais a fornalha do inimigo, para que no 
venhais a cair nela. Ultrapassar podemos, por excesso de rapidez, a meta a que almejvamos, perdendo-a, 
assim, por esse prprio excesso. Como o sabeis, a chama que o licor faz subir na vasilha e derramar-se, 
parecendo aument-lo, o esgota apenas. Sede sensato, torno a aconselhar-vos. Na Inglaterra no h 
cabea alguma capaz de dirigir-vos como a vossa, se quiserdes com a seiva da prudncia, quando no 
apagar, deixar mais brando o fogo da paixo. 
BUCKINGHAM - Senhor, por isso vos fico agradecido; vou guiar-me por vossa prescrio. Mas 
esse tipo arqui-orgulhoso - no me leva o excesso de clera a nome-lo desse modo, mas honesta 
emoo - por muito certos indcios, provas claras como as fontes no ms de julho, quando distinguimos 
no fundo os gros de areia, tenho em conta de corrupto e traioeiro. 
NORFOLK - No "traioeiro"; no digais isso. 
BUCKINGHAM - Vou diz-lo ao rei, e minhas provas ho de ser to fortes como praia de rocha. 
Sede atento. Esta santa raposa, ou lobo, ou ambos - pois to voraz ele  quanto astucioso, e to propenso 
a excogitar maldades, a execut-las sempre, de alma e posto que reciprocamente se infeccionam, 
contanto que estadeie aqui e em Frana toda essa pompa - ao nosso soberano sugeriu esse pacto to 
custoso, essa entrevista que absorveu tesouros de tal valia e que acabou partindo-se, qual vidro ao ser 
limpado. 
NORFOLK -  certo,  certo, por minha f; fez isso. 
BUCKINGHAM - Por obsquio, senhor! Esse cardeal astuto e fino redigiu os artigos do contrato 
como bem entendeu, tendo sido eles ratificados com ter declarado: "Faa-se assim!" Mas so to teis 
como muletas para um morto. Pouco importa! Foi o conde-cardeal o autor de tudo; o digno Wolsey, que 
errar no pode nunca, foi quem fez isso. Mas o que se segue - que a meu ver  uma espcie de ninhada 
da velha me Traio -  apenas isto: Carlos, o imperador, sob o pretexto de vir ver a rainha sua tia - foi 
apenas pretexto, que, em verdade, veio ele para cochichar com Wolsey - fez-nos uma visita. Ele temia 
que do encontro marcado entre os monarcas da Inglaterra e da Frana lhe pudesse surgir qualquer 
prejuzo, que, em verdade, nessa liga ele via qualquer coisa que podia amea-lo. Assim, com nosso 
cardeal ele tratou muito em segredo - como imagino, sim, tenho certeza, pois convencido estou de que o 
monarca pagou antes de obter o prometido, com o que teve a inteno assegurada bem antes de 
enunci-la. - Em suma, havendo franqueado a estrada e de ouro atapetado, desta arte o imperador 
manifestou-se: que nele estava obter que o rei o curso desviasse da poltica e o contrato de paz viesse a 
romper.  necessrio que o rei saiba - e por mim vir a sab-lo - que o cardeal deste modo compra e 
vende a honra do reino, e tudo em seu proveito. 
NORFOLK - Entristece-me ouvir tais coisas dele; desejara saber que h nisso equvoco. 
BUCKINGHAM - No, nem no menor ponto; apresentei-o com os verdadeiros traos com que ele h 
de desmascarado ser dentro de pouco. 
(Entra Brandon, precedido de um sargento de armas.) 
BRANDON - Vosso ofcio, sargento, executai-o.  convosco, senhor Duque de Buckingham e 
Conde de Hereford, Stafford e Northampton; em nome de nosso alto soberano, por crime de traio eu te
detenho. 
BUCKINGHAM - Milorde, sobre mim caiu a rede; a vida perco por traio e astcia. 
BRANDON - Pesa-me ver-vos sem a liberdade e ter de ao fim levar esta incumbncia. A 
determinao de Sua Alteza  que sejais levado para a Torre. 
BUCKINGHAM - Protestar inocncia fora intil; a mancha que em mim pesa deixa negra minha 
prpria brancura. Seja feita a vontade do cu, agora e sempre. Obedeo. Oh! adeus, adeus, milorde de 
Abergavenny. 
BRANDON - No; ele tambm vos far companhia. 
(A Abergavenny.) 
 da vontade do monarca que vades para a Torre at poderdes ser certificado do que ele decidir. 
ABERGAVENNY - Tal como o duque, tambm direi que em tudo seja feita a vontade do cu, e 
obediente me declaro ao prazer do soberano. 
BRANDON - Ordem expressa aqui trago do rei para a priso de Lorde Montacute, devendo, aps, 
prender Joo de la Car, o confessor do duque, um tal Gilberto Peck, seu chanceler... 
BUCKINGHAM - Bem, bem; os membros dessa conspirao.  tudo, creio. 
BRANDON - H um monge cartuxo. 
BUCKINGHAM - Como! Como! Nicolau Hopkins? 
BRANDON - Esse. 
BUCKINGHAM -  um miservel meu intendente. O cardeal imenso lhe ofereceu dinheiro. Tenho 
os dias contados; sou a pobre sombra, apenas, de Buckingham, que neste instante a forma de uma nuvem 
assume, para escuro deixar meu claro sol. Milorde, adeus. 
(Saem.) 
CENA II 
Sala do Conselho. Entra o rei, apoiado no ombro do cardeal, os nobres do Conselho, Sir Toms 
Lovell, oficiais e pessoas do squito. O cardeal vai sentar-se aos ps do rei, ao lado direito. 
REI HENRIQUE - Sim, toda a minha vida, do mais fundo do corao vos agradece tanto cuidado e 
vigilncia. Eu me encontrava na iminncia de ser estraalhado pela deflagrao de uma conjura. Mas 
frustraste-la; muito agradecido. Trazei a nossa frente o gentil-homem da famlia de Buckingham; desejo 
ouvi-lo pessoalmente. Vai contar-me mais uma vez, sem discrepncia alguma, as traies de seu amo. 
(Ouvem-se vozes, dentro: "Passagem para a rainha!" Entra a Rainha Catarina, introduzida pelos 
Duques de Norfolk e de Suffolk. Ela ajoelha-se. O rei se ala do trono, levanta-a, beija-a e f-la sentar-se 
ao seu lado.) 
RAINHA CATARINA - No; preciso ficar de joelhos? vim como pedinte. 
REI HENRIQUE - Levantai-vos e, ao nosso lado, vinde tomar vosso lugar. No  preciso que nos 
digais metade do pedido. A metade possus de nosso mando; sem ser pedida, a outra metade  vossa. 
Dizei o que quereis, que j est feito. 
RAINHA CATARINA - Muito agradeo a Vossa Majestade. Que vos ameis e, nesse grande afeto, 
no deixeis nunca de atender vossa honra, nem de vosso alto posto a dignidade, o objeto constitui de meu 
pedido. 
REI HENRIQUE - Senhora, continuai. 
RAINHA CATARINA - Tenho-me visto solicitada por no poucos sditos, os de maior apreo, que 
se queixam de grandes aflies que todos sofrem. Para eles comisses tm sido enviadas que o corao 
estraalhar conseguem da lealdade de todos. E conquanto, meu bom Lorde Cardeal, eles dirijam contra
vs as censuras mais acerbas, de serdes o fautor dessas violncias, o rei, nosso senhor - que o cu 
conserve seu nome isento de qualquer vileza! - escapar no consegue dos discursos desrespeitosos, sim, 
dessa linguagem que os flancos arrebenta da lealdade e quase em rebelio se manifesta. 
NORFOLK - No "quase"; manifesta-se, realmente. Pois sob esses impostos to pesados, todos os 
fabricantes de tecidos, sustentar no podendo tanta gente, em massa despediram seus fiandeiros, 
pisoeiros, teceles e cardadores, que, incapazes de uma outra atividade, pela fome acossados, sem 
recurso, premidos pelo desespero, os fatos atacam pela frente. Todos se acham presentemente em franca 
rebelio, servindo em suas filas o perigo. 
REI HENRIQUE - Impostos? De que espcie? Quais so eles? Senhor cardeal, que vos achais 
conosco censurado igualmente por tudo isso, que sabeis a respeito desse imposto? 
WOLSEY - Se o permitis, senhor, conheo apenas uma pequena parte dos negcios relativos ao 
Estado e me coloco junto dos outros que comigo marcham. 
RAINHA CATARINA - Sim, milorde,  verdade: mais que os outros no sabeis; mas sois vs o 
autor de coisas que do conhecimento so de todos e que no so saudveis para quantos ignor-los de 
todo quereriam, mas forados se vem a conhec-las. Sim, essas exaes, de que informado quer ser o 
soberano, s o ouvi-las nos causa mal as ouas; suport-las... no resistimos sob o peso delas. Dizem que 
fostes vs o autor da idia; no sendo assim, estais sendo inculpado por maneira mui grave. 
REI HENRIQUE - Como! Como! Mais exaes? Vejamos: de que espcie? De que espcie so elas? 
RAINHA CATARINA - Grande risco existe em pr a prova, desse modo, vossa pacincia; mas 
encontro apoio na promessa de Vossa Majestade, de que me perdoaria. A geral queixa provm das 
comisses, que deles todos exige a sexta parte dos haveres, que arrecadada tem de ser com urgncia, 
sendo o pretexto que para isso alegam, vossas guerras na Frana. Isso d pbulo s lnguas atrevidas; 
longe as bocas cospem todo o respeito e se congela nos frios coraes toda a lealdade. Onde moravam 
preces, moram pragas, chegando tudo ao ponto de que a dcil obedincia em escravo transformou-se da 
vontade exaltada. Desejara que sem delongas Vossa Alteza desse a mxima ateno a esse negcio. Mais 
urgente no h. 
REI HENRIQUE - Por minha vida, contraria isso tudo nosso gosto. 
WOLSEY - Por mim, no fui mais longe nisso tudo do que por meio de um singelo voto, s o tendo 
dado aps o assentimento de juizes ponderados. Se acusado estou sendo por lnguas ignorantes que, sem 
nada saberem de meus planos e de minha pessoa, de meus feitos em crnica se arvoram, permiti-me 
dizer-vos que essa  a sorte de meu posto, a vereda de espinhos que a virtude ter de atravessar. No  
possvel coibir-me de fazer o que  preciso, com medo de ir bater nos maliciosos censuradores, que 
procedem sempre como peixes vorazes, que na esteira se pem de barco de recente fbrica, embora outra 
vantagem no consigam, alm da inveja intil. Muitas vezes o que fazemos de melhor, no juzo dos 
fracos ou maldosos julgadores, feito no foi por ns, ou implica abuso, e nossos piores atos -  freqente 
- interpretados por grosseiro esprito, so proclamados como grandes feitos. Se imveis nos pusermos, 
pelo medo de que possam zombar de nossos passos, ou cobri-los de oprbrio, criaremos raiz onde 
estivermos, ou ficamos na posio de esttua, simplesmente. 
REI HENRIQUE - A ao louvvel, feita com cuidado, a si mesma se isenta de censura, mas de 
temer em suas conseqncias  a que no acha apoio no passado. Em algum precedente vos baseastes 
para tal exao? Em nenhum, creio. Arrancar no devemos nossos sditos de nossas leis, nem menos 
amarr-los ao nosso despotismo. A sexta parte dos haveres? Que imposto apavorante!  como se 
tirssemos das rvores a copa, a casca e parte, at, do tronco; muito embora as razes lhes deixssemos, 
mutilada a esse ponto, o ar absorvera, sem falta, toda a seiva. Que se enviem cartas nossas a todos os 
condados em que houve lanamento desse imposto, perdo amplo anunciando a todos quantos  nossa 
execuo se revoltaram. Por favor, cuidai logo desse assunto; deixo isso a vosso encargo.
WOLSEY (ao secretrio) - Uma palavra muito em particular. Enviai missivas a todos os condados, 
anunciando graa e perdo da parte do monarca. -nos contrrio o povo desgostoso. Fazei, por isso, 
propalar o boato de que houve nossa interferncia nessa revogao e no perdo de todos. Sobre esse 
assunto vos darei em breve maiores instrues. 
(Sai o secretrio.) 
(Entra o intendente.) 
RAINHA CATARINA - Sentida me deixou saber que o Duque de Buckingham caiu recentemente no 
vosso desagrado. 
REI HENRIQUE - Muita gente, tambm, ficou sentida.  um gentil-homem muito instrudo, orador 
de raros dotes, com quem foi liberal a natureza, de tal educao que poderia conselhos ministrar e 
ensinamentos aos mais conspcuos mestres, sem que nunca para si prprio ajuda procurasse. E, contudo, 
quando esses altos dotes no so bem aplicados, corrompida que a alma se torne, em vcios todos eles se 
transformam, dez vezes mais horrendos do que antes eram belos e atraentes. Esse homem to completo, 
que alistado foi entre as maravilhas, que, do gozo de ouvi-lo nos fazia ter uma hora de conversa por um 
fugaz minuto; esse mesmo, senhora, s qualidades que lhe eram prprias emprestou roupagens 
monstruosas e ficou to negro como se o prprio inferno o houvesse enegrecido. Ao nosso lado vinde ora 
sentar-vos. Ouvireis coisas - este gentil-homem j foi de sua inteira confiana - de deixar a honra triste. 
Ele que conte mais uma vez os fatos horrorosos de que fugir no poderemos nunca bastantemente, como 
no quisramos sobre eles ouvir nada. 
WOLSEY - Apresentai-vos e relatai com corajoso esprito, como compete a um sdito zeloso, 
quanto pudestes arrancar do Duque de Buckingham. 
REI HENRIQUE - Com liberdade fala. 
INTENDENTE - Primeiramente, como era costume dele, todos os dias empestava seu discurso 
dizendo que, no caso de vir o rei a falecer sem prole, arranjaria as coisas de maneira que o cetro a obter 
viria. Ouvi quando ele essas mesmas palavras disse ao genro, Lorde Abergavenny, a quem ele a jura fez 
de tomar vingana do cardeal. 
WOLSEY - Observe Vossa Alteza a criminosa traa desse projeto. No se achando com sua prpria 
aspirao de acordo, profundamente hostil sua vontade se tornou contra vossa alta pessoa. Vai mais 
alm: vossos amigos fere. 
RAINHA CATARINA - Interpretai com caridade tudo, sbio Lorde Cardeal. 
REI HENRIQUE - Vamos adiante. Como ele a presuno justificava, uma vez consumada nossa 
queda? Ouviste-o discorrer sobre esse ponto? 
INTENDENTE - Foi levado a pensar dessa maneira por uma falsa e intil profecia de Nicolau 
Hopkins. 
REI HENRIQUE - Quem  esse Hopkins? 
INTENDENTE -  um cartuxo, senhor, confessor dele, que a todos os momentos o alimenta com 
palavras de trono e de realeza. 
REI HENRIQUE - E como soubeste isso? 
INTENDENTE - Pouco tempo antes de Vossa Alteza ir para a Frana, na Rosa estando o duque, na 
parquia de So Loureno Poultney, perguntou-me que se falava em Londres dessa viagem. Temiam, 
respondi-lhe, uma perfdia por parte dos franceses, perigosa para nosso monarca. E logo o duque retrucou 
que em verdade havia causa para isso e que talvez se confirmasse certo dito proftico de um monge de 
grande santidade, "que freqentes vezes", acrescentou, "me tem mandado recado para que eu autorizasse 
meu capelo, Joo de la Car, a assunto de relevncia dele ouvir em hora previamente assentada. E aps 
haver-lhe solenemente o capelo jurado, tal como em confisso, que quanto dele pudesse ouvir, a ser 
nenhum com vida, a no ser a mim mesmo, transmitira, com toda a gravidade e segurana disse ele
devagar: Nem o monarca nem seus herdeiros - contai isso ao duque - podero prosperar; que ele se 
esforce por ganhar o favor do povo mido. Reinar ainda h de o duque na Inglaterra". 
RAINHA CATARINA - Se estou bem informada, j estivestes como intendente dele, tendo o posto 
perdido pela queixa dos rendeiros. Tomai cuidado, para no manchardes uma nobre pessoa com vosso 
dio, vindo a perder, assim, vossa nobre alma. Digo: tende cuidado; sim, concito-vos de todo o corao a 
fazer isso. 
REI HENRIQUE - Deixai-o continuar; vamos, prossegue. 
INTENDENTE - S direi a verdade, por minha alma. Disse a milorde, o duque, que esse monge bem 
poderia vtima estar sendo das iluses do diabo, e que era muito perigoso para ele demorar-se num 
pensamento desses at o ponto de formar algum plano que factvel lhe parecesse, tal como acontece 
freqentemente. Respondeu-me: "Cala-te! nunca isso poder prejudicar-me", tendo dito depois que se o 
monarca morrido houvesse na ltima doena, Sir Toms Lovell e o cardeal teriam cortadas as cabeas. 
REI HENRIQUE - Oh! que zelo! H maldade nesse homem. Tens alguma coisa mais a contar? 
INTENDENTE - Tenho, senhor. 
REI HENRIQUE - Ento, prossegue. 
INTENDENTE - Achava-me em Greenwich, de uma feita, depois que Vossa Alteza censura fez ao 
duque, por motivo de Sir Guilherme Blomer... 
REI HENRIQUE - Lembro-me ainda desse fato: sendo ele do meu feudo, entre os vassalos dele o 
ps o duque. Bem; e depois? 
INTENDENTE - No caso, disse-me ele, de eu ter sido mandado para a Torre por causa disso, como 
fora crvel, representado houvera a mesma parte que meu pai quis representar no tempo do usurpador 
Ricardo: em Salisbury se achando, permisso pediu de  frente comparecer do rei. Caso tivesse sido 
atendido - e era pretexto as suas homenagens prestar-lhe - apunhalado haveria o monarca. 
REI HENRIQUE - Oh gigantesco traidor! 
WOLSEY - Que achais, senhora: poderia Sua Alteza viver tranqilamente, estando esse homem 
livre? 
RAINHA CATARINA - Possa tudo em Deus achar remdio! 
REI HENRIQUE - Alguma coisa parece que ainda tens para contar-nos. Continua. 
INTENDENTE - Depois de ter falado "na parte de meu pai" e, tambm, "faca", ps-se de p e, a 
mo assim na espada, a outra no peito, levantando os olhos, soltou um juramento pavoroso, dizendo que 
se viesse a sofrer algo, tanto ao pai se adiantara, quanto dista da execuo o plano irresoluto. 
REI HENRIQUE - Era seu fim fazer de nosso corpo bainha para espada. J est preso. Levai-o sem 
demora ao julgamento. Se puder encontrar na lei amparo, concedido h de s-lo; do contrrio, em ns 
no h de ach-lo. Oh! noite e dia! revela na traio grande mestria! 
(Saem.) 
CENA III 
Um quarto no palcio. Entram o Lorde Camareiro e Lorde Sands. 
CAMAREIRO - Como! Ser possvel que os encantos da Frana agora obriguem tanta gente a seguir 
essas modas arbitrrias? 
SANDS - A moda, embora chegue a ser ridcula, indigna at dos homens,  seguida. 
CAMAREIRO - Pelo que vejo, todas as vantagens que os ingleses ganharam nessa viagem no 
passam de uma ou duas carantonhas. Mas so horrendas; pois, ao assumi-las, podereis jurar no mesmo 
instante que seus narizes foram conselheiros de Pepino ou Clotrio, tal a sua majestade e imponncia.
SANDS - Todos eles tm pernas novas, porm sempre mancas. Quem nunca antes os visse andar, 
pensara que sofressem manqueira. 
CAMAREIRO - Pela Morte, milorde! A roupa deles  de talho to pago, que  certeza haverem 
gasto tudo o que de cristos possuam antes. 
(Entra Sir Toms Lovell.) 
Ento, Sir Toms Lovell! Que h de novo? 
LOVELL - Por minha f, milorde, no conheo novidade nenhuma, se tirarmos o edito que acabaram 
de afixar na porta do castelo. 
CAMAREIRO - E seu objeto? 
LOVELL - A reforma dos nossos perfumados viajantes, que de brigas deixam cheia a corte, de 
conversas e alfaiates. 
CAMAREIRO - Isso me alegra. Agora pediria a esses monsieurs que aos cortesos ingleses 
concedessem bom senso, embora nunca tivessem visto o Louvre. 
LOVELL -  necessrio - as condies so essas - que eles ponham de lado as plumas e demais 
tolices que trouxeram da Frana, juntamente com os muito honrosos pontos da ignorncia que disso 
fazem parte, como duelos e fogos de artifcio, o menosprezo de pessoas que valem mais do que eles e 
que alvo so do pedantismo extico... Libertem-se da f que tm no tnis, nas meias altas e cales com 
fofos, e todos esses smbolos da viagem, voltando a ser, como antes, gente honesta, ou as malas aprontem 
e retornem para os seus companheiros de loucura, onde eles podero -  o que presumo - gastar cum 
privilegio o que lhes resta de impudiccia,  custa do ridculo. 
SANDS -  tempo de lhes dar algum remdio; a doena est ficando contagiosa. 
CAMAREIRO - Que perda para nossas damas, essa de to raras vaidades! 
LOVELL - Oh! decerto. Vai haver muito choro, meus senhores; esses bastardos astuciosos tm 
manha para fazer que as damas caiam: fazem grandes milagres. 
SANDS - Que lhes sirva de rabequista o diabo! Bem, que partam todos eles, pois,  certeza, nunca 
viro a endireitar. Dagora em diante, qualquer fidalgo honesto da campanha, como eu, por tanto tempo 
conservado fora do jogo, poder sua ria modesta apresentar e ser ouvido durante uma hora, sim, pela 
Madona, e at passar por msico aceitvel. 
CAMAREIRO - Muito bem, Lorde Sands; ainda tendes vossos dentes de leite. 
SANDS - E conserv-los pretendo, enquanto me restar um coto. 
CAMAREIRO - Para onde ides agora, Sir Toms? 
LOVELL -  casa do cardeal, e sei que Vossa Senhoria tambm foi convidado. 
CAMAREIRO - Oh! decerto! Hoje  noite em casa dele vai haver um banquete de mo-cheia, para 
muitos fidalgos e senhoras. As belezas do reino ho de presentes estar  festa, posso asseverar-vos. 
LOVELL - De corao magnnimo  esse prncipe da Igreja e mo fecunda como a terra, que 
alimento nos d. Por toda parte se espalha o orvalho dele. 
CAMAREIRO -  certo:  nobre. Boca negra h de ter quem outra coisa disser a seu respeito. 
SANDS - No lhe faltam razes, milorde, para ser magnnimo. No caso dele a economia fora pecado 
mais nocivo que a heresia. Os homens de seu timbre devem sempre ser liberais. O exemplo parte deles. 
CAMAREIRO - Perfeitamente; porm poucos hoje do to grandes exemplos. Minha barca por mim 
espera; Vossa Senhoria ir comigo. Vamos, meu bondoso Sir Toms; chegaremos atrasados; com Sir 
Henrique Guildford indicado fui para ser mordomo dessa festa. 
SANDS - Fico s ordens de Vossa Senhoria. 
(Saem.) 
CENA IV
Sala no palcio de York. Obos. Uma pequena mesa sob um dossel, para o Cardeal Wolsey; uma 
mesa grande para os hspedes. Por uma porta entra Ana Bolena acompanhada de vrias damas e 
senhoras de qualidade, como hspedes; pela outra entra Sir Henrique Guildford. 
GUILDFORD - Minhas senhoras, cordiais boas-vindas vos trago aqui por parte de Sua Graa. A 
todos vs e  distrao dedica esta noite o cardeal, estando certo de que nenhum dos componentes deste 
nobre bando de casa trouxe a mnima preocupao. A todos ele almeja a alacridade que o bom vinho, as 
boas companhias e o bom acolhimento, de regra, a toda gente boa ensejam. 
(Entram o Lorde Camareiro, Lorde Sands e Sir Toms Lovell.) 
CAMAREIRO - Ainda sois moo, Sir Henrique Guildford. 
SANDS - Sir Toms Lovell, se o cardeal tivesse metade, apenas, de meus pensamentos mundanos, 
asseguro-vos que muitas destas senhoras hoje encontrariam, antes de irem dormir, um bom refresco, oh! 
muito mais do agrado delas todas. 
LOVELL - Se de uma ou duas Vossa Senhoria fosse hoje o confessor! 
SANDS - Oh! quem me dera! Encontrariam branda penitncia. 
LOVELL - Branda, como? 
SANDS - To branda quanto um leito de plumas ensejasse. 
CAMAREIRO - Caras senhoras, no quereis sentar-vos? Sir Henrique, ficai daquele lado, que eu me 
encarrego deste. Sua Graa vem j. No, no podeis ficar geladas; quando se sentam juntas duas damas, 
o tempo deixam frio. Lorde Sands, vs  que ireis deix-las sempre espertas; vinde sentar-vos entre estas 
senhoras. 
SANDS - Por minha f, a Vossa Senhoria sou muito agradecido. Com licena, gentis senhoras. 
(Senta-se entre Ana Bolena e outra dama.) 
Se se der que eu fale com certo estouvamento, desculpai-me, que isso  herana paterna. 
ANA - Ele era louco? 
SANDS - Oh, em excesso! Louco, a conta inteira; no amor, tambm. Mas a ningum mordia; como 
ora fao, poderia vinte beijos vos dar num flego. 
(Beija-a.) 
CAMAREIRO - Bem dito, milorde; agora, sim, estais sentado num bom lugar. A culpa, cavalheiros, 
ser s vossa, se estas lindas damas daqui sarem com fechado rosto. 
SANDS - Deixai-me s com o pouco que me toca. 
(Obos. Entra o Cardeal Wolsey, acompanhado, e vai sentar-se sob o dossel.) 
WOLSEY - Sede bem-vindos, belos convidados. A gentil dama ou o nobre cavalheiro que no 
mostrar franca alegria agora, no tem amor a mim. Sede bem-vindos novamente.  sade de vs todos. 
(Bebe.) 
SANDS - Vossa Graa  gentil. Dem-me uma taa que conter possa os agradecimentos e um 
discurso me poupe. 
WOLSEY - Lorde Sands, muito vos agradeo. Deixai ledas vossas vizinhas; no esto alegres. 
Cavalheiros, quem tem a culpa disso? 
SANDS - Primeiro o rubro vinho h de subir-lhes, senhor, s belas faces, para que elas de tanto 
conversar nos deixem mudos. 
ANA - Milorde Sands, sois um par alegre. 
SANDS - Quando posso escolher a contraparte. Eis vinho para Vossa Senhoria. Se quiserdes beber... 
Porque se trata de uma coisa... 
ANA - Que no podeis mostrar-nos. 
SANDS - No disse a Vossa Graa que haveriam de soltar logo a lngua?
(Ouve-se toque de trombetas e de tambores; descarga de artilharia.) 
WOLSEY - Que aconteceu? 
CAMAREIRO - Algum v ver o que houve. 
(Sai um criado.) 
WOLSEY - Que rudo belicoso ser esse? Que significar? Minhas senhoras, nada temais, pois 
tendes privilgios assegurados pelas leis da guerra. 
(Volta o criado.) 
CAMAREIRO - Ento, que aconteceu? 
CRIADO - Um nobre bando de estrangeiros, parece. J saltaram do barco e se aproximam como 
grandes embaixadores de estrangeiros prncipes. 
WOLSEY - Bondoso Lorde Camareiro, dai-lhes as boas-vindas, pois falais francs, e at ns os 
trazei, para que a todos este cu de belezas ilumine completamente. Alguns o ajudem nisso. 
(Sai o Lorde Camareiro, acompanhado. Todos os convivas se levantam; so removidas as mesas.) 
Tivestes o banquete interrompido; mas saberei remediar isso. Boa digesto a vs todos. E de novo 
vos dou as boas-vindas. Sois bem-vindos. 
(Obos. Entram o rei e outros fidalgos, mascarados e fantasiados de pastores, introduzidos pelo Lorde 
Camareiro. Dirigem-se diretamente para o cardeal e o sadam graciosamente.) 
Que nobre companhia. Que desejam? 
CAMAREIRO - Pedem que diga a Vossa Graa, visto nenhum falar ingls, que, tendo ouvido pela 
alta Fama que uma companhia bela e nobre haveria de reunir-se neste ponto hoje  noite, no puderam 
menos de abandonar os seus rebanhos, movidos do respeito que  beleza sempre tm demonstrado, e sob 
o vosso patrocnio licena vos impetram para ver estas damas e uma hora de distrao passar com todas 
elas. 
WOLSEY - Dizei-lhes, Lorde Camareiro, que eles fazem muita honra  minha pobre casa; muito 
lhes agradeo e a todos peo que aqui procedam como bem quiserem. 
(Cada um tira uma dama para danar; o rei tira Ana Bolena.) 
REI HENRIQUE - A mo mais bela que eu jamais toquei.  linda! At hoje eu no te conhecera! 
(Msica. Dana.) 
WOLSEY - Milorde! 
CAMAREIRO - Vossa Graa? 
WOLSEY - De minha parte, por favor, dizei-lhes que deve haver uma pessoa entre eles mais digna 
deste assento do que eu prprio, a quem, se a conhecesse, o cederia com meu amor e todo o meu respeito. 
CAMAREIRO - Pois no, milorde. 
(Os mascarados cochicham uns para os outros.) 
WOLSEY - Que  que esto dizendo? 
CAMAREIRO - Confessam que h, realmente, essa pessoa, mas querem que a descubra Vossa 
Graa, porque o lugar oferecido aceite. 
WOLSEY - Vou tentar. 
(Levanta-se de seu lugar.) 
Cavalheiros, com licena: neste aqui fao a minha real escolha. 
REI HENRIQUE (tirando a mscara) - Achaste-lo, cardeal. Encantadora companhia aqui tendes. 
Bem pensado. Sois um homem da Igreja; do contrrio, cardeal, eu vos teria em mau conceito. 
WOLSEY - Alegro-me por ver que Vossa Graa se mostra espirituoso. 
REI HENRIQUE - Por obsquio, milorde camareiro, aproximai-vos: quem  aquela dama 
encantadora? 
CAMAREIRO - Se me permite Vossa Graa,  filha de Sir Toms Bolena, do Visconde de
Rochefort; ela  dama da rainha. 
REI HENRIQUE - Pelo cu,  adorvel. Minha jia, descortesia fora rematada tirar-vos para a dana 
sem beijar-vos. Um brinde, meus senhores! Bebam todos. 
WOLSEY - Sir Toms Lovell, pronto est o banquete na cmara privada? 
LOVELL - Sim, milorde. 
WOLSEY - Vossa Graa, receio-o, pela dana ficou algo animado. 
REI HENRIQUE - Em demasia, tenho muito receio. 
WOLSEY - Na outra sala, milorde, o ar  mais fresco. 
REI HENRIQUE - Levem todos suas damas. Afvel companheira, no poderei deixar-vos por 
enquanto. Alegremo-nos todos. Meu bondoso Lorde Cardeal, beber ainda pretendo meia dzia de brindes 
com estas damas e novamente  dana concit-las. Depois disso, cada um ter licena de imaginar que 
foi o de mais sorte. Vamos! que soe a msica! 
(Saem, com toque de trombetas.) 
ATO II 
CENA I 
Westminster. Uma rua. Entram dois gentis-homens, que se encontram. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Por que tamanha pressa? 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Oh! Deus vos guarde. Ia direito  sala do conselho para ouvir o que 
vo fazer do grande Duque de Buckingham. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Ento vos poupo, senhor, esse trabalho. J est tudo concludo, 
tirante a cerimnia de levar novamente o prisioneiro. 
SEGUN1)O GENTIL-HOMEM - Estivestes presente? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Sim, decerto. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Que aconteceu? Dizei-me, por obsquio. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Adivinhar podeis mui facilmente. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Ficou reconhecida a culpa dele? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Sem dvida nenhuma, tendo sido, como tal, condenado. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Triste fico perante essa notcia. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Como muitas outras pessoas. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Mas, por gentileza, como se passou tudo? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Vou contar-vos em resumo o que vi. O grande duque apresentou-se 
ao tribunal, e a todos os itens que contra ele formularam respondeu, declarando-se inocente e alegando 
razes de muito peso porque da lei livrar-se conseguisse. O advogado do rei, por outro lado, fazia carga 
sobre o questionrio, provas e confisses das testemunhas, com as quais o duque quis ser confrontado 
para, de viva voz, poder falar-lhes, depois do que contra ele depuseram seu intendente, Sir Gilberto Peck, 
tambm chanceler dele e, assim, John Car, que foi seu confessor, e aquele monge diablico, sim, 
Hopkins, que culpa teve de tudo. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - No foi esse monge que o empanturrou com suas profecias? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Precisamente. Todos o acusaram com veemncia. De grado ele 
teria destrudo tantas provas; mas no pode. E assim, ante a evidncia, os prprios pares o declararam ru 
de alta traio. Ele se defendeu por muito tempo e com sabedoria, porque a vida viesse a salvar; mas tudo 
foi somente lastimado ou esquecido na mesma hora.
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - E aps isso, como ele se portou? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Ao ser trazido novamente  barra do tribunal para o funreo toque, 
sua sentena, ouvir, de grande angstia ficou tomado, em bagas lhe escorrendo pelas faces o suor; falou 
colrico qualquer coisa, apressado e sem sentido. Porm voltou a si em pouco tempo e, serenado, at o 
fim mui nobre resignao mostrou. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - No acredito que tenha medo  morte. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM -- No, decerto; jamais foi pusilnime. Contudo, tinha razo para 
ficar nervoso. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Com certeza o cardeal tem parte nisso. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - A pensar desse modo nos obrigam todas as conjeturas. De comeo, 
foi detido Kildare, quando ainda era deputado da Irlanda. Uma vez ele retirado do posto, foi mandado 
para substitu-lo o Conde Surrey, com toda a urgncia, porque no pudesse levar auxlio ao pai. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Essa manobra poltica revela muita astcia. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Quando o conde voltar, isso  certeza, h de querer vingar-se dele. 
 fato mui notrio que todas as pessoas que o monarca distingue, logo arranja jeito o cardeal para 
ocup-la alhures, bem distante da corte. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Todo o povo lhe vota dio entranhado e, por minha alma, desejaria 
de bom grado v-lo dez braas sob a terra, enquanto ao duque todos so afeioados, s o chamando de 
generoso Buckingham  espelho de toda a cortesia. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Fazei pausa nessa altura, senhor, e vede o nobre par arruinado, 
sobre que falveis. 
(Entra Buckingham, reconduzido do julgamento; oficiais de justia o precedem, de machado, com o 
corte virado para o lado dele; alabardeiros de ambos os lados. Vm com ele Sir Toms Lovell, Sir 
Nicolau Vaux, Sim William Sands e gente do povo.) 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Vamos ficar mais perto, para v-lo. 
BUCKINGHAM -  boa gente que de longe viestes por vos compadecerdes de meu fado: ouvi 
quanto vos digo e, abandonando-me, retornai para casa. Hoje a sentena recebi de traidor, sendo foroso 
morrer com esse labu. Contudo, sirva-me o cu de testemunha: caso eu tenha conscincia, s desejo 
que, no instante de cair o machado, ela me deixe, tendo eu sido desleal. No recrimino por minha morte a 
lei: justa foi ela, uma vez admitidas as premissas. Porm que fossem mais cristos quisera aqueles que a 
aplicaram. Mas perdo-lhes quanto eles intentaram. No se mostrem jactanciosos, no entanto, na malcia, 
nem pretendam construir sua maldade no sepulcro dos grandes, que contra eles meu inocente sangue 
clamaria. Esperana no tenho de esta vida terrena prolongar, nem imploro isso, ainda que mais graas o 
rei tenha do que eu pecados cometer ousasse.  vs, pequeno nmero de amigos que me tendes amor e 
revelastes coragem de chorar a triste sorte de Buckingham, seus nobres companheiros e amigos, cuja 
despedida  a nica amargura, para ele como a morte: como anjos bons vinde at o fim comigo. E 
quando sobre mim cair o longo divrcio de ao, um doce sacrifcio fazei com vossas preces, elevando 
minha alma para o cu. Vamos; levai-me logo, em nome de Deus. 
LOVELL - Por caridade suplico a Vossa Graa: se algum dio em qualquer tempo contra mim 
guardastes no corao, perdoai-me francamente. 
BUCKINGHAM - Sim Toms Lovell, tudo vos perdo, tal como desejara ser perdoado. Perdo tudo. 
Haver no pode ofensas inumerveis que eu capaz no seja de esquecer por completo. A negra inveja no 
h de assinalar-me a sepultura. Recomendai-me a sua Graa; caso a Buckingham venha ele a referir-se, 
dizei-lhe, por obsquio, que o encontrastes a caminho cio cu. Meus votos todos e as oraes ao rei 
dizem respeito, e enquanto no se despedir minha alma, s h de suplicar bnos para ele. Que mais 
anos viver ele consiga do que tempo me sobra de cont-los. Amado e amvel seja seu governo. E ao
baixar ao sepulcro em muita idade, num monumento viva com a bondade. 
LOVELL -  preciso que eu leve Vossa Graa para o outro lado da gua, onde este encargo 
transmitirei a Sir Nicolau Vaux, que ao vosso fim ter de acompanhar-vos. 
VAUX - Preparai tudo! O duque est chegando. Ponde a barca de jeito e decorai-a de acordo com a 
grandeza que lhe  prpria. 
BUCKINGHAM - No, no, Sir Nicolau; deixai tudo isso, que minha posio, de agora em diante, 
de mim s poder fazer chacota. Quando aqui vim, era o alto condestvel, Duque de Buckingham; porm 
agora sou apenas o pobre Eduardo Bohun. Porm mais rico sou do que os meus baixos acusadores, que 
jamais souberam o que fosse a lealdade, que ora eu selo com o prprio sangue, o qual h de faz-los 
algum dia gemer. Meu nobre pai, Henrique de Buckingham, que contra a tirania de Ricardo foi o 
primeiro a rebelar-se, tendo pedido asilo em casa de seu criado Banister, porque estava na desgraa, foi 
trado por esse miservel, vindo logo a morrer sem julgamento. Que a paz de Deus seja com ele! 
Henrique VII, ao trono aps tendo subido, sinceramente lastimando a sorte de meu pai, como prncipe s 
direitas, reintegrou-me nas honras e das runas fez meu nome sair com maior brilho. Mas agora seu filho 
Henrique VIII vida, honra e nome, quanto me deixava feliz, de um golpe fez que para sempre sumisse 
deste mundo. Julgamento concedido me foi, sendo foroso que o declare: mui nobre, isso me deixa um 
pouco mais feliz do que o meu muito desventurado pai. Mas numa coisa nos iguala o destino: o termos 
sido trados pelos criados, justamente pelas pessoas a que mais amvamos. Desleal servio e contra a 
natureza! Seus fins o cu em toda a parte mostra. Porm vs que me ouvis, de um moribundo recebei este 
aviso indubitvel: Sempre que fordes liberal com vossos conselhos e afeio, tende cautela, pois os 
prprios amigos que fizerdes, o corao lhes dando, ao perceberem a menor diferena em vossa sorte, de 
vs se afastaro como o faz a gua, s retomando para assoberbar-vos e tragar-vos por fim. Gente 
bondosa, rezai por mim. Foroso  que vos deixe. A hora postrema j soou de minha vida to dilatada e 
cansativa. Adeus. Quando algo triste relatar quiserdes, contai como eu ca. Aqui termino. E que Deus me 
perdoe. 
(Sai Buckingham e o squito.) 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Que coisa lamentvel! Isso chama, senhor, receio-o muito, 
inumerveis maldies sobre os prprios responsveis. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Se inocente estiver o duque nisso,  terrvel, de fato. No entretanto, 
poderia mostrar-vos uns indcios de uma calamidade em perspectiva, que, se vier a se dar, ser, sem 
dvida, muito maior do que esta. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Anjos bondosos, afastai-a de ns! Qual ser ela? Confiai, senhor, 
tenho certeza disso, em minha discrio. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Esse segredo  de tal monta que requer a mxima confiana porque 
possa ser contado. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Revelai-mo; no sou de muita prosa. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Confio em vs, senhor; vou revelar-vo-lo. No ouvistes, acaso, 
alguns rumores nestes ltimos dias sobre o prximo divrcio entre o monarca e Catarina? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Ouvi, mas j passou, pois o monarca ficou encolerizado quando 
soube do que se comentava e mandou ordem para o Lorde Maior, porque fizesse parar in continenti esses 
rumores e as lnguas responsveis aquietasse. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Contudo, meu senhor, essa calnia mostrou-se verdadeira, pois 
renasce com mais vio que nunca, estando todos convictos de que o rei vai tentar isso. Se no foi o 
cardeal, um dos validos da corte, por maldade to-somente contra a boa rainha, sugeriu-lhe certo 
escrpulo que h de arruin-la. Confirma-se a notcia com a chegada muito recente do Cardeal Campeio, 
que veio s para isso, julgam todos.
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Foi o cardeal,  certo; e to-somente para do imperador tomar 
vingana, por no haver obtido o arcebispado de Toledo, conforme lhe pedira. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Estou certo de que batestes no alvo. Mas no  doloroso que seja 
ela, justamente, que venha a pagar tudo? Obter o cardeal o que deseja, que  a queda da rainha. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Oh!  terrvel. Mas aqui nos achamos muito  vista, para falarmos 
disso. Conversemos mais de espao em algum lugar seguro. 
(Saem.) 
CENA II 
Uma antecmara do palcio. Entra o Lorde Camareiro lendo uma carta. 
CAMAREIRO - "Milorde: os cavalos que Vossa Senhoria encomendou foram, com todo o zelo, 
escolhidos por mim, montados e arreados. Eram mui novos e vistosos, e da melhor raa do Norte. 
Quando tudo j se achava no jeito de serem eles enviados para Londres, um dos homens do Lorde 
Cardeal, munido de comisso e de plenos poderes, mos arrebatou, sob a alegao de que seu amo tinha 
de ser servido, antes de qualquer sdito e at mesmo antes do rei, o que nos entupiu a boca, senhor." Sim, 
receio que o seja. Pois que fique com eles! Quer ficar com tudo, penso. 
(Entram os Duques de Norfolk e de Suffolk.) 
NORFOLK - Feliz encontro, Lorde Camareiro. 
CAMAREIRO - Muito bom dia para Vossas Graas. 
SUFFOLK - Que faz o rei? 
CAMAREIRO - Deixei-o s, entregue a pensamentos tristes e a cuidados. 
NORFOLK - E qual a causa disso? 
CAMAREIRO - O casamento com a mulher de seu mano, ao que parece, mui de perto perturba-lhe a 
conscincia. 
SUFFOLK - No; a conscincia dele  que perturba de perto outra senhora. 
NORFOLK -  assim, realmente.  obra do cardeal; do rei-cardeal. Esse filho dileto da fortuna, esse 
padre sem olhos, vira todas as coisas pelo avesso. Mas um dia quem ele  h de o rei ficar sabendo. 
SUFFOLK - Deus o permita; pois, de outra maneira, jamais h de a si mesmo conhecer-se. 
NORFOLK - Que santidade em todos os seus atos! Que zelo pe em tudo! Agora que ele a liga ps 
por terra que entre o grande sobrinho da rainha e ns havia, o imperador, no corao mergulha do nosso 
rei, onde semeia dvidas, remorsos de conscincia, desesperos, perigos e temores, e tudo isso s por 
motivo desse casamento. E para o rei tirar desse embarao aconselha o divrcio, a jogar longe de si 
prprio quem, como jia rara, lhe pendeu do pescoo por vinte anos, sem que perdesse o brilho, a da que 
o ama com esse amor inefvel que dedicam aos homens bons os anjos, juntamente a ela, que at sob o 
mais rude golpe da sorte, ainda abenoar o rei. Tudo isso no revela santidade? 
CAMAREIRO - Deus me proteja contra tais alvitres!  bem verdade que essas novas andam por toda 
a parte; todos as comentam, sem que haver possa corao honesto que por isso no chore. Quem de perto 
se atreve a examinar esse negcio, o fim supremo dele enxerga logo: a irm do Rei da Frana. O cu um 
dia os olhos h de abrir ao rei, que, para este homem mau, h tanto tempo dorme. 
SUFFOLK - E livrar-nos de sua servido. 
NORFOLK - Precisamos rezar com fervor para sermos libertados; caso contrrio, esse homem 
prepotente, de prncipes que somos, a ns todos vai transformar em pajens. Diante dele todas as honrarias 
a aparncia tomam de massa informe que ele molda como bem lhe parece. 
SUFFOLK - Por meu lado, senhores, nem amor ele me inspira, nem medo em mim desperta. Eis o
meu credo. No lhe devendo o meu estado, fico sendo o que sou, se ao rei for isso grato. Suas bnos 
me so indiferentes e suas maldies: um simples vento que passa sem ferir-me. Conheci-o como o 
conheo ainda; assim, o entrego a quem o fez to orgulhoso: ao papa. 
NORFOLK - Vamos entrar. Quem sabe se outro assunto distrai o rei dessas idias tristes que tanto 
ora o deprimem? Companhia no nos fareis, milorde? 
CAMAREIRO - Desculpai-me, mas o monarca me enviou alhures. Alm do mais, receio que o 
momento no seja muito prprio... A ambos desejo muita e muita sade. 
NORFOLK - Agradecido, meu mui bondoso Lorde Camareiro. 
(Sai o Lorde Camareiro.) 
(Norfolk abre uma porta de duas folhas; aparece o rei, sentado e lendo com ar pensativo.) 
SUFFOLK - Que ar de tristeza!  fato: algo o preocupa. 
REI HENRIQUE - Ol! Quem est a? 
NORFOLK - Permita Deus que ele se encontre calmo. 
REI HENRIQUE - Quem est a? repito; como ousastes intrometer-vos desse modo em minhas 
meditaes privadas? Quem sou eu? 
NORFOLK - Um rei gracioso que perdoa a todas as ofensas isentas de maldade. Um negcio do 
Estado foi que a quebra do dever nos imps, para sabermos qual seja a vossa deciso real. 
REI HENRIQUE - Sois muito ousados. Ide! Hei de fazer-vos conhecer vossas horas de servio. 
(Entram Wolsey e Campeio.) 
Quem est a? Meu bom Lorde Cardeal!  meu Wolsey bondoso, o lenitivo de minha conscincia to 
ferida! s o remdio prprio de um monarca. (A Campeio.) Sois bem-vindo, mui sbio e reverendo 
senhor, a nosso reino. Podeis dele dispor como de ns. (A Wolsey.) Bondoso lorde, tomai cuidado para 
que eu no venha a dizer coisas sem nenhum sentido. 
WOLSEY - Senhor, no nas direis, se Vossa Graa nos conceder uma hora apenas, para 
conversarmos  parte. 
REI HENRIQUE - (a Norfolk e Suffolk) - Ide; estamos ocupados agora. 
NORFOLK ( parte, a Suffolk) - No  certo que esse padre  orgulhoso? 
SUFFOLK ( parte, a Norfolk) -  insuportvel. No quisera estar doente at esse ponto, nem 
mesmo a troco de seu posto agora. Mas  impossvel que isso continue. 
NORFOLK ( parte, a Suffolk.) - Se tal se der, arriscarei medir-me com ele numa queda. 
SUFFOLK ( parte, a Norfolk.) - Eu tambm, noutra. 
(Saem Norfolk e Suffolk.) 
WOLSEY - Deu Vossa Graa uma lio de grande sabedoria a todos os monarcas, submetendo de 
grado vossas dvidas  voz da cristandade. Quem agora poderia mostrar-se aborrecido? Que dio vos 
alcanara? A Espanha, pelo sangue e pelos favores a ela presa, ter de confessar, se for sincera, que o 
debate foi justo e em tudo nobre. Todo o clero - refiro-me aos mais sbios da cristandade - tm opinio 
livre. Roma, esse bero da sabedoria, por vossa solicitao enviou-nos uma lngua geral, este bom 
homem, este santo e erudito sacerdote, Cardeal Campeio, que de novo apresento a Vossa Alteza. 
REI HENRIQUE - E, de braos abertos, eu de novo lhe dou as boas-vindas, ao sagrado conclave 
agradecendo o amor que todos assim me certificam, pois me enviaram o homem que desejar eu poderia. 
CAMPEIO - Vossa Graa merece o amor de todos os estrangeiros, por to nobre serdes. Nas mos 
de Vossa Alteza ora deponho minha alta comisso, por cuja fora e expressa ordem de Roma, 
associais-vos comigo, servo dela, vs, milorde Cardeal de York, para, com iseno de nimo, julgarmos 
esse assunto. 
REI HENRIQUE - Ambos so dignos. Vai ficar a rainha neste instante sabendo o que vos trouxe. 
Onde est Gardiner?
WOLSEY - Sei bem que Vossa Majestade sempre a amou com tantas veras, que impossvel vos ser 
recusar-lhe o que outra dama de menos posio exigiria com base no direito: alguns juristas com 
liberdade para defend-la. 
REI HENRIQUE - Sim, poder dispor dos mais notveis; e desde j prometo o meu amparo para o 
que a defender com maior brilho. Deus o contrrio disso no permita. Por obsquio, cardeal, chamai-me 
Gardiner, meu novo secretrio. Acho-o muito hbil. 
(Sai Wolsey.) 
(Volta Wolsey com Gardiner.) 
WOLSEY ( parte, a Gardiner.) - Dai-me a mo; alegria vos desejo, muita prosperidade. Desde 
agora pertenceis ao monarca. 
GARDINER ( parte, a Wolsey.) - Porm para mandado sempre ser por Vossa Graa, cuja mo me 
elevou. 
REI HENRIQUE - Vem para perto, Gardiner. 
(Conversam  parte.) 
CAMPEIO - Por acaso, Lorde de York, no ocupava um Doutor Pace o posto que este homem ora 
ocupa? 
WOLSEY - Justamente. 
CAMPEIO - E no passava por um grande sbio? 
WOLSEY - Sem dvida nenhuma. 
CAMPEIO - Podeis crer-me, Lorde Cardeal, mas corre um boato feio que vos toca de perto. 
WOLSEY - A mim! Como isso? 
CAMPEIO - Sem reservas proclamam que o invejveis. De medo que ele viesse a subir muito, por 
ser de grande mrito, o mantnheis ocupado nas cortes estrangeiras, o que tanto o magoou, que morreu 
louco. 
WOLSEY - Que a paz do cu seja com ele. Como cristo  s o que digo. Para os vivos que 
murmuram, castigos no lhes faltam. Mas esse era um idiota, que queria ser virtuoso. Aquele outro que 
ali vedes faz tudo o que eu mandar, sem discrepncia. S quero gente assim junto do trono. Aprendei 
isto, irmo: no desejamos ser perturbados pelos subalternos. 
REI HENRIQUE - Entregai com respeito isto  rainha. 
(Sai Gardiner.) 
Quero crer que o lugar mais adequado para essa erudio seja Black-Friars. Ali vos reunireis para 
esse assunto de tamanha importncia. Meu caro Wolsey, mandai arranjar tudo. Oh! como custa, milorde, 
para quem tem sentimento, abandonar to doce companheira. Mas, conscincia, conscincia! s delicada 
por demais.  preciso abandon-la. 
(Saem.) 
CENA III 
Uma antecmara dos aposentos da rainha. Entram Ana Bolena e uma velha dama da corte. 
ANA - Por isso tambm no. Nisso  que o espinho nos provoca mais dor. Tendo Sua Alteza vivido 
ao lado dela tanto tempo, e sendo ela senhora to bondosa, que jamais lngua alguma dizer pode nada 
contra sua honra... Sim, de fato: nunca a ningum fez mal... E agora, tendo ficado sobre o trono tantos 
cursos do sol, em plena pompa e majestade, que deixar  mil vezes mais amargo do que  doce alcanar, 
ser repelida depois de ter vivido desse modo, comover poderia qualquer monstro. 
A VELHA DAMA - Os coraes da tmpera mais dura se fundem em lamentaes por ela.
ANA - O cu assim o quis. Bem melhor fora no ter a pompa conhecido nunca. Conquanto temporal, 
quando a Fortuna rixenta nos obriga a abandon-la, produz-se um sofrimento to pungente como o de 
separar-se do corpo a alma. 
A VELHA DAMA - Volta a ser estrangeira! Pobre dama! 
ANA - Mais um motivo para que a piedade se derrame sobre ela. Pois vos juro que  prefervel vir de 
um bero obscuro e contente viver com gente humilde, a pavonear-se numa dor brilhante e carregar uma 
tristeza de ouro. 
A VELHA DAMA - O que de melhor temos  a alegria. 
ANA - Por minha f e minha virgindade, no desejara ser rainha nunca. 
A VELHA DAMA - Pois eu quisera s-lo, por minha alma, e a prpria virgindade arriscaria, bem 
como vs, com todo esse tempero de falsidade. Sendo possuidora, como o sois, dos encantos femininos, 
tambm tereis um corao de acordo, que sempre ambicionou a preeminncia, soberania, bens, que so 
legtimas bnos, para ser franca, sendo certo que, a despeito de todos esses dengues, vossa conscincia 
branda como pele de cabrito decerto aceitaria, bastando que para isso a distendsseis. 
ANA - No, no, por minha f. 
A VELHA DAMA - Qual f, qual nada!  certo: no quisreis ser rainha? 
ANA - No, por quanto ouro sob o cu se encontra. 
A VELHA DAMA - interessante! Pois qualquer moedinha me compraria - velha como me acho - 
para subir ao trono. Mas dizei-me, por favor, que pensais de uma duquesa? Tendes fora bastante para o 
peso suportar desse ttulo? 
ANA - Nenhuma. 
A VELHA DAMA -  que nascestes fraca. Diminuamos a carga um pouco. No quisera ver-me em 
vossa estrada, como um conde jovem, para deixar-vos mais do que corada. Se vosso dorso no suporta o 
fardo,  que para uma criana  muito fraco. 
ANA - Como falais! Pois juro novamente que nem por todo o mundo eu desejara chegar a ser rainha. 
A VELHA DAMA -  muito certo: pela Inglaterrazinha arriscareis empunhar firme o cetro. Eu, do 
meu lado, f-lo-ia pelo Carnavon, embora no mais do que isso pertencesse ao trono. Mas quem vem 
vindo a? 
(Entra o Lorde Camareiro.) 
CAMAREIRO - Muito bom dia, minhas senhoras. Quanto me pedreis para me revelardes o segredo 
sobre que conversveis? 
ANA - No compensa vossa pergunta, meu bondoso lorde. A falar nos achvamos da sorte de nossa 
soberana. 
CAMAREIRO - Mui louvvel tema, decerto, e em tudo condizente com o sentimento de pessoas 
boas. Mas h esperana de que tudo ainda venha a terminar bem. 
ANA -  s o que a Deus peo. Que assim seja. 
CAMAREIRO - Tendes mui nobre corao. As bnos celestes caem sempre nas pessoas 
semelhantes a vs. E, bela dama, para mostrar-vos quo sincero eu falo e a que ponto tm sido apreciadas 
vossas altas virtudes, a grandeza do rei vos testemunha seu apreo, determinando honrar-vos de maneira 
no menos florescente do que o ttulo de Marquesa de Pembroke vos dando, ao qual Sua Graa uma 
penso ajunta de mil libras anuais. 
ANA - Saber no posso de que maneira demonstrar-lhe todo meu reconhecimento. Tudo quanto sou 
 menos que nada; minhas preces no so santificadas, no passando meus votos de palavras sem 
substncia. Ainda assim, s posso oferecer-lhe meus votos e oraes. Suplico a Vossa Senhoria que 
exprima toda a minha gratido e obedincia a Sua Alteza, como de jovem que enrubesce e reza pela 
sade dele e seu governo.
CAMAREIRO - De reforar no deixarei, senhora, a opinio favorvel que o monarca tem a vosso 
respeito. (A parte.) Examinei-a muito bem. A beleza e a dignidade de tal maneira nela se misturam, que o 
rei deixaram preso. Quem nos diz que (lesta dama no sair uma jia capaz de iluminar toda nossa ilha? 
(Alto.) Vou ver o rei; direi que nos falamos. 
ANA - Muito estimado lorde! 
(Sai o Lorde Camareiro.) 
A VELHA DAMA - Como as coisas se passam! Vede! Vede! Dezesseis anos mendiguei na corte, e 
ainda sou mendiga, sem que nunca entre o cedo demais e o muito tarde pudesse achar o meio certo para 
meus pedidos de libras. E, oh destino! vs, um peixinho novo - fora! fora! com a sorte to forada! - 
encheis a boca antes mesmo de abri-la. 
ANA - Estou perplexa. 
A VELHA DAMA - Que gosto tem?  amargo? No, aposto quarenta pences em como  bem 
gostoso. Era uma vez uma senhora - antigo conto assim comeava - que por nada deste mundo quisera 
ser rainha; em absoluto, nem por toda a lama do Egito. Conhecei-lo? 
ANA - Estais brincando. 
A VELHA DAMA Com vosso tema aos cus eu remontara. Marquesa de Pembroke! Com uma renda 
de mil libras, por pura reverncia, sem outra obrigao! Por minha vida, isso promete mais alguns 
milheiros. A cauda da grandeza  mais comprida que a frente do vestido. Agora vejo que podeis carregar 
uma duquesa. No  certo que agora estais mais forte? 
ANA - Minha boa senhora, distra-vos com vossa fantasia, mas deixai-me fora desse brinquedo. 
Morrer quero, se isso  capaz de alvoroar-me o sangue. Desfalecer me sinto  s idia do que vir 
depois. A rainha se encontra inconsolvel e ns nos esquecemos dela, ausentes assim por tanto tempo. 
Por obsquio, nada deveis dizer-lhe do que ouvistes. 
A VELHA DAMA - Decerto! Que pensais a meu respeito? 
(Saem.) 
CENA IV 
Uma sala em Black-Friars. Trombetas; fanfarras e toque de cornetas. Entram dois oficiais de justia 
com varinhas de prata; seguem-nos dois escrives com vestes de doutor; a seguir, o Arcebispo de 
Canturia, sozinho; depois, os Bispos de Lincoln, Ely Rochester e Santo Asaph. Depois deles, a pequena 
distncia, vem um gentil-homem com uma bolsa, o grande selo e um chapu cardinalcio; depois, dois 
padres, trazendo cada um uma cruz de prata. A seguir, entra um gentil-homem da cmara do rei, com a 
cabea descoberta, acompanhado de um sargento de armas, que traz um cetro de prata; depois, dois 
gentis-homens, carregando dois grandes pilares de prata. Depois deles, lado a lado, os dois cardeais, dois 
cavalheiros com espada e cetro. Depois entram o rei e a rainha, com os respectivos squitos. O rei se 
assenta sob o baldaquim; os dois cardeais se sentam abaixo dele, como juizes; a rainha se assenta a certa 
distncia do rei; os bispos se colocam de cada lado da corte, em forma de consistrio. Abaixo deles, os 
escrives. Os nobres se sentam junto dos bispos. O pregoeiro e os outros oficiais de servio se colocam 
no palco em ordem conveniente. 
WOLSEY - At que nossa comisso de Roma seja lida, mandai que haja silncio. 
REI HENRIQUE Qual a necessidade disso? Feita j foi publicamente essa leitura; sua validez est 
reconhecida de ponta a ponta. Assim, fora possvel poupardes Esse tempo. 
WOLSEY - Seja. Adiante! 
ESCRIVO - Gritai: Rei Henrique da Inglaterra, comparecei a este tribunal!
PREGOEIRO - Rei Henrique da Inglaterra, comparecei a este tribunal! 
REI HENRIQUE - Presente. 
ESCRIVO - Gritai: Catarina, Rainha da Inglaterra, comparecei a este tribunal! 
PREGOEIRO - Catarina, Rainha da Inglaterra, comparecei a este tribunal! 
(A rainha no responde; levanta-se de seu lugar, atravessa a sala, dirige-se para o rei, ajoelha-se aos 
ps dele e depois fala.) 
RAINHA CATARINA - S direito e justia  o que vos peo, senhor, e que de mim tenhais piedade. 
Sou uma pobre mulher, uma estrangeira, que veio ao mundo longe dos domnios que vos so prprios. 
No disponho agora nem de juiz imparcial nem de esperana de tratamento equnime da corte. Ai de 
mim! Em que posso, acaso, tem-vos ofendido, milorde? Que motivo de desgosto vos deu minha conduta, 
para pensardes em mandar-me embora, de vossa graa e afeto me privando? O cu  testemunha de que 
sempre vos fui esposa humilde e verdadeira; sempre me conformei ao vosso alvitre; com medo sempre, 
at, de despertar-vos desgosto, busquei sempre acomodar-me ao menor gesto vosso, alegre ou triste, 
conforme vos notasse. Em que momento tentei opor-me a qualquer ordem vossa, sem que fizesse minha? 
A qual dos vossos amigos por amar no me esforcei, muito embora na conta de inimigo sempre o tivesse 
tido? Ou a que pessoa de minhas relaes eu continuei revelando afeio, quando ela vossa clera 
provocasse? Na mesma hora no lhe fazia ver que passaria da por diante a ser meu inimigo? 
Recordai-vos, senhor, de que durante mais de vinte anos, obediente sempre, hei sido vossa esposa e tive a 
bno de vos dar muitos filhos. Se no curso desse tempo puderdes um s fato mencionar e provar contra 
minha honra, minha fidelidade, meu afeto, o respeito que devo a vossa sacra pessoa: em nome, sim, de 
Deus, lanai-me de vossa vista e que o mais negro oprbrio venha fechar-me as portas, entregando-me ao 
rigor mais severo da justia. Escutai-me, senhor: o soberano vosso pai sempre foi considerado um 
prncipe prudente, de excelente julgamento e de muita perspiccia. Ferdinando, meu pai e Rei da 
Espanha, passava pelo prncipe mais sbio daquela terra, desde muitos anos, sendo fora de dvida, 
portanto, que em cada reino eles reunido houvessem um conselho de sbios, que julgaram legal nossa 
unio, depois de haverem bem estudado o assunto. Por tudo isso, senhor, humildemente vos suplico que 
me poupeis at que eu tenha tempo de me comunicar com meus amigos de Espanha e lhes pedir que me 
aconselhem. Mas em nome de Deus, caso contrrio, tambm nisso se faa o que quiserdes. 
WOLSEY - Senhora, aqui dispondes destes padres reverendos - a escolha tendes livre - homens de 
singular integridade e, todos eles, de saber mui raro, a nata da nao, que aqui se encontram para vos 
defender. Intil fora, por isso, adiar o julgamento, tanto para vosso sossego como para deixar o rei sem 
causa de inquietude. 
CAMPEIO - Com todo o acerto e muito sabiamente Sua Graa falou. Por isso tudo, senhora,  
conveniente que prossiga esta real sesso, devendo logo ser apreciadas as razes das partes. 
RAINHA CATARINA - Lorde Cardeal,  a vs que eu me dirijo. 
WOLSEY - Qual  o vosso prazer, minha senhora? 
RAINHA CATARINA - Senhor, estou no ponto de chorar. Mas refletindo que rainha somos - pelo 
menos assim me vi em sonhos por muito tempo - e com certeza filha de um monarca, transformo minhas 
lgrimas em chispas abrasantes. 
WOLSEY - Ficai calma. 
RAINHA CATARINA - Ficarei, quando humilde vos mostrardes; antes, no, porque Deus me 
puniria. Creio, firmada em provas convincentes, que sois meu inimigo. Assim, declaro-vos suspeito para 
funcionardes como juiz em minha causa, pois as chamas que se alam entre mim e meu marido nasceram 
de vosso hlito. Prouvera que o orvalho do Senhor possa apag-las! Mais uma vez declaro: 
abominando-vos como vos abomino, com toda a alma, para meu julgador no vos aceito, porque - tomo 
a dizer - vos considero inimigo maldoso, e no vos posso ter em conta de amigo da verdade.
WOLSEY - Preciso confessar que vos estranho por causa da linguagem, que bondosa sempre vos 
revelastes, demonstrando disposio gentil e em tudo branda, sobre sabedoria patenteardes que 
ultrapassava o sexo. Enormemente, senhora, me ofendeis; dio no tenho com relao a vs, nem fui 
injusto jamais convosco ou com qualquer pessoa. Tudo quanto at agora tenho feito, da comisso do 
consistrio emana, direi melhor: de todo o consistrio de Roma. Contra mim fizestes carga de que eu 
soprei as chamas deste incndio. No  assim, o rei est presente. Se ele achasse que falso eu me 
mostrara, em seu poder estava castigar-me mui merecidamente a falsidade, sim, com o mesmo rigor com 
que zurzistes minha veracidade. Se ele sabe que eu me encontro inocente dessa pecha, sabe tambm que 
me fazeis ofensa. Dele depende, assim, reabilitar-me, o que pode fazer de vs tirando semelhantes idias. 
Por tudo isso, antes que Sua Alteza a falar venha, graciosa dama, instante vos conjuro a retratar-vos, 
nunca mais voltando a usar essa linguagem. 
RAINHA CATARINA -  milorde! eu sou uma mulher simples, muito fraca para lutar com toda 
vossa astcia. Sois brando e de linguagem sempre humilde. Exerceis vosso posto e ministrio com 
mostras exteriores de brandura, de perfeita humildade, mas de orgulho tendes o corao inflado sempre, 
de arrogncia e rancor. Favorecido pela fortuna e o amparo de Sua Graa, subir pudestes com facilidade 
os degraus mais de baixo, ora encontrando-vos numa altura em que todos os poderes se constituram 
vossos seguidores. Vossas palavras, como humildes servos, prestam-se a executar vossos desejos em 
tudo o que quiserdes. Sou-vos franca: mostrais-vos mais zeloso do prestgio pessoal do que mesmo dos 
deveres de vossa profisso em tudo digna. Como juiz recuso-vos, declaro-o novamente; e ora, em frente 
de vs todos, apelo para o papa, resolvida a levar minha causa at  presena de Sua Santidade, porque 
seja julgada com justia. 
(Inclina-se diante do rei e faz meno de retirar-se.) 
CAMPEIO - Mui rebelde contra a justia mostra-se a rainha, inclinada a acus-la e desdenhosa de 
suas decises. No  bom isso. J se vai retirando. 
REI HENRIQUE - Convocai-a novamente. 
PREGOEIRO - Catarina, Rainha da Inglaterra, comparecei ante este tribunal! 
GR1FFITH - Chamaram-vos, senhora. 
RAINHA CATARINA - Por que prestastes ateno a isso? Segui vosso caminho, por obsquio. Dai 
meia volta, quando vos chamarem. Deus venha em minha ajuda;  insuportvel. Vamos; no ficarei aqui 
mais tempo, nem nunca mais porei os ps nas cortes convocadas por causa deste assunto. 
(Sai a rainha com seu squito.) 
REI HENRIQUE - Vai, Kate; continua teu caminho. Se houver no mundo quem ousar gabar-se de ter 
acaso esposa mais valiosa, que em nada seja crido aps to grande, to patente mentira. Ests sozinha 
com tuas raras qualidades, tua bondade natural, benignidade como de santa, dignidade em tudo feminina, 
obedincia no comando... Todas essas virtudes soberanas e religiosas, se falar pudessem, te aclamariam, 
bem o sei, rainha das rainhas da terra. Tem nobreza de nascimento, e por maneira nobre, com relao a 
mim, se portou sempre. 
WOLSEY - Mui gracioso senhor, humildemente conjuro a Vossa Alteza que se digne declarar ante 
todos os presentes - pois onde eu fui roubado e acorrentado solto tenho de ser, mesmo no caso de no 
chegar a obter a merecida satisfao - se todo este negcio foi por mim sugerido a Vossa Alteza ou se, 
de qualquer modo, fiz escrpulos em vs nascerem, que vos decidissem a propor a questo; se qualquer 
dito da boca me saiu - seno apenas louvores ao Senhor, por alcanado terdes to alta esposa - que 
pudesse em detrimento vir do estado dela ou de leve atingir sua pessoa. 
REI HENRIQUE - Milorde, eu vos desculpo. Por minha honra, absolto vos declaro. No preciso 
dizer-vos quantos inimigos tendes, que o motivo de o serem desconhecem, aos cachorros de aldeia 
semelhantes, que ladram por ouvir ladrar os outros. Um desses contra vs fez irritar-se o nimo da
rainha. Desculpado - de todo vos achais. Mas se quiserdes que a justificao seja completa, direi que 
sempre desejastes que este negcio adormecesse, no querendo que fosse despertado. Muitas vezes, sim, 
muitos empecilhos levantastes nos caminhos que fossem dar at ele. Por minha honra declaro que o 
bondoso Lorde Cardeal no teve parte nisso. Absolvo-o por completo. Quanto s causas que me 
determinaram neste passo, da ateno dos presentes e do tempo pretendo ora abusar. Vede o comeo. Foi 
assim; ateno prestai a tudo. Minha conscincia viu-se perturbada pela Primeira vez, com certo 
escrpulo, como que espicaada, ante as palavras do embaixador francs numa dada poca, o Bispo de 
Baiona, que aqui viera para negociar o casamento entre o Duque de Orlans e nossa filha Maria. No 
decurso das conversas, antes de termos assentado nada, ele - a saber: o bispo - requereu-nos que em 
suspenso deixssemos o assunto para que ele consulta ao rei fizesse sobre se nossa filha era legtima com 
relao ao nosso casamento com a rainha-me, que fora esposa de nosso prprio irmo. Esse intervalo 
abalou-me a conscincia at ao mais fundo, na alma me penetrou com fora ingente, a tremer o imo peito 
me deixando. Abrindo, assim, caminho, inumerveis perplexidades em tropel afluram, assoberbado me 
deixando o esprito. De incio me ocorreu que o cu deixara de sorrir para mim, pois, tendo o mando 
sobre a natura, havia-lhe ordenado que se um filho varo de mim o ventre de minha esposa a conceber 
viesse, no lhe haveria de fazer servio mais relevante do que faz aos mortos a sepultura. Com efeito: 
todos os filhos masculinos ou morriam onde gerados tinham sido, ou logo depois de respirarem o ar do 
mundo. Da me ter nascido o pensamento de que isso era um castigo, que meu reino digno de ter o mais 
brilhante herdeiro, de mim no lhe viria essa alegria. Pus-me a pensar, depois, todo o perigo a que o pas 
sujeito se encontrava, pela falta de herdeiro, o que do peito me arrancou sentidssimos gemidos. Desse 
modo, flutuando no agitado mar de minha conscincia, pus a mira neste remdio que  o motivo certo de 
nossa reunio. Por outros termos: pretendia aliviar minha conscincia, que ento sentia gravemente 
enferma e que ainda no se acha muito boa, em que possam ter feito os reverendos prelados e os doutores 
c da terra. Comecei, Lorde Lincoln, consultando-vos em carter privado. Certamente deveis estar 
lembrado como ao peso dessa opresso eu suspirava, quando pela primeira vez vos falei nisso. 
LINCOLN - Perfeitamente, meu senhor. 
REI HENRIQUE - Falei-vos longamente. Dizei vs mesmo agora o que, por consolar-me, ento 
fizestes. 
LINCOLN - Se a Vossa Majestade for do agrado, de tal modo confuso esse problema de incio me 
deixou, no s por sua transcendente importncia, como pelas terrveis conseqncias que seriam de 
esperar, que o conselho mais ousado  dvida confiei, havendo logo proposto a Vossa Alteza a idia que 
ora se concretiza aqui. 
REI HENRIQUE - Falei convosco, Milorde de Canturia, havendo obtido vosso consentimento para 
que esta reunio viesse a ser feita. No h membro desta colenda corte que eu deixasse de consultar, foi 
tudo feito, tudo, com o apoio formal e o selo expresso ele cada um e de todos. Por tudo isso; prossegui, 
pois nenhuma antipatia contra a pessoa da gentil rainha, mas aqueles acleos lancinantes das razes 
aduzidas suscitaram semelhante debate. Se provardes que nosso enlace  vlido, por minha vida, por 
minha rgia dignidade, felizes somos por participarmos com ela deste nosso mortal curso, com Catarina, 
nossa soberana, que antepomos a todas as criaturas do mundo, por mais primas e exemplares que 
porventura sejam. 
CAMPEIO - Vossa Alteza me perdoe, mas a ausncia da rainha nos impe o adiamento desta corte. 
At essa nova data deveremos insistir com empenho junto dela para que ela desista do recurso que em 
mandar pensa a Sua Santidade. 
(Levantam-se para sair.) 
REI HENRIQUE - Noto que estes cardeais esto fazendo troa de mim. Odeio essas delongas, essas 
manhas de Roma.  meu fiel Cranmer, meu sbio servidor e muito amado, conjuro-te a voltar, pois tua
vinda, tenho certeza, me trar conforto. - Suspendei a sesso, digo... Saiamos. 
(Saem todos, na mesma ordem com que entraram.) 
ATO III 
CENA I 
O palcio de Bridewell. Um quarto dos aposentos da rainha. A rainha e suas damas de companhia 
esto trabalhando. 
RAINHA CATARINA - Menina, vai buscar teu alade, que minha alma est aflita de cuidados. Se 
puderes, dispersa-os com teu canto. Larga o trabalho. 
Cano 
Com sua lira Orfeu fazia 
dobrar-se a montanha fria 
e os troncos, quando cantava. 
At, sem chuva e sem sol, 
se via um lindo arrebol 
e a primavera pompeava. 
Ouvindo-o as coisas cantar, 
as prprias ondas do mar 
se quedavam pensativas. 
Tem o canto tal condo 
que as dores do corao 
se tornam logo cativas. 
(Entra um gentil-homem.) 
RAINHA CATARINA - Que  que h? 
GENTIL-HOMEM - Se Vossa Graa o permitir, encontram-se os dois grandes cardeais a fora,  
espera. 
RAINHA CATARINA - Querem falar-me? 
GENTIL-HOMEM - Tenho instrues deles para dizer que sim. 
RAINHA CATARINA - Dizei-lhes que entrem. 
(Sai o gentil-homem.) 
Que querero de mim, sendo eu to pobre, uma fraca mulher, j sem prestigio? Quanto mais penso 
nisso, menos acho prazer nessa visita. Homens virtuosos deviam ser, de posio to digna... Mas o hbito 
no faz o monge,  certo. 
(Entram Wolsey e Campeio.) 
WOLSEY - Paz para Vossa Alteza. 
RAINHA CATARINA - Vossas Graas como dona de casa ora me encontram. O medo do futuro  
que me obriga a estar em condies de fazer tudo. Reverendos senhores, qual a causa de quererdes 
falar-me? 
WOLSEY - Se do agrado vos for, nobre senhora, passaremos para vosso aposento reservado, onde 
vos exporemos os motivos desta nossa visita. 
RAINHA CATARINA - Mesmo aqui poderemos falar, pois, em conscincia, at hoje nada fiz que 
no pudesse revelar francamente em qualquer parte. Prouvera ao cu que todas as mulheres pudessem
declarar a mesma coisa com igual liberdade. Meus senhores, uma felicidade sempre tive: isso de no 
ligar nunca importncia ao fato de meus gestos comentados serem por toda a gente, de ficarem sob a 
vista de todos, e como alvo dos ataques da inveja e da calnia, to certa me acho de ter vida limpa. Se 
vindes para examinar a minha conduta como esposa, sede francos. Sempre a verdade ama linguagem 
rude. 
WOLSEY - Tanta est erga te mentis integritas, regina serenissima. 
RAINHA CATARINA - Oh! nada de latim, meu bom senhor. No tenho estado to ociosa, desde 
minha chegada, que no aprendesse a lngua dos que vivem no meu meio. Em lngua estranha minha 
causa toma-se mais estranha e suspeita. Por obsquio, dai forma inglesa ao vosso pensamento. Se a 
verdade disserdes, as pessoas presentes vos sero agradecidas por sua pobre senhora. Acreditai-me: 
tratada tem sido ela rudemente. Lorde Cardeal, meu mais premeditado pecado pode ser perfeitamente 
absolvido em ingls. 
WOLSEY - Nobre senhora, pesa-me ver que a minha integridade, e toda a devoo com que vos 
sirvo e a Sua Majestade s despertam suspeitas, apesar de toda a minha boa f e lealdade. Aqui no 
vimos para acusar, para manchar uma honra que recebido tem somente bnos das almas bem formadas, 
nem, tampouco, para vos provocar novas tristezas - que  o que tendes bastante - mas apenas para 
ficarmos conhecendo como julgais a grave dissidncia que houve entre o monarca e vs, e para dar-vos. 
- como pessoas livres e sinceras - nossa justa opinio e algum conforto. 
CAMPEIO - Muito honrada senhora, o Lorde de York, movido por sua nobre natureza, pelo zelo e 
obedincia que ele ainda professa a Vossa Graa, e j esquecido, por ser homem de bem, de vosso ataque 
contra ele prprio - muito longe, muito, vos deixastes levar - vos oferece, como o fao, os servios e 
conselhos. 
RAINHA CATARINA ( parte) - Para trair-me. (Alto.) Meus senhores, a ambos agradeo a 
inteno. Falastes como gente honesta - prouvera ao cu que o fsseis! - Mas dar uma resposta to de 
sbito sobre assunto de tanta gravidade, que to de perto a honra vem ferir-me e muito mais, talvez, a 
prpria vida... Com meu fraco juzo, diante de homens de tanta erudio e gravidade, com franqueza, no 
sei como faz-lo. Encontrava-me em meio s minhas damas de companhia, longe - Deus o sabe - de 
pensar em visitas de tal porte e em semelhante assunto. Assim, em nome do que eu fui - pois percebo 
que se encontra no fim minha grandeza - a Vossas Graas suplico conceder  minha humilde causa um 
pouco de tempo e reflexo. Ah! sou uma mulher fraca, sem amigos, sem esperana alguma. 
WOLSEY - Nobre dama, ofendeis a afeio do soberano com semelhante medo. No tm nmero 
vossos amigos, vossas esperanas. 
RAINHA CATARINA - Na Inglaterra, de quase nenhum prstimo. Acreditais, senhores, que um 
ingls se atreveria a dar-me algum conselho, dizer-se amigo meu, abertamente, contra o prazer agir de 
Sua Alteza - dado que houvesse algum desesperado que honesto se mostrasse - continuando, depois 
disso, com vida? No, decerto. Os amigos que o fardo poderiam sopesar de meu grande sofrimento, em 
quem confiai- de todo eu poderia, aqui no vivem. Todos eles, como qualquer outro consolo, muito longe 
se acham daqui, na minha prpria ptria. 
CAMPEIO - Desejaria que por uns instantes Vossa Graa deixasse essas tristezas e ouvisse meu 
conselho. 
RAINHA CATARINA -- Qual  ele, senhor? 
CAMPEIO -  proteo do soberano confiar a vossa causa. Ele  bondoso e por demais amvel. De 
vantagem fora para vossa honra e vossa causa, pois se vos atingir o legal juzo, desonrada saireis. 
WOLSEY -  com acerto que ele vos aconselha. 
RAINHA CATARINA - Ele aconselha o que ambos desejais: minha runa.  um conselho cristo? 
Oh! que vergonha para vs ambos! Ainda h cu, l no alto um juiz se encontra a que nenhum monarca
poder corromper. 
CAMPEIO - Vossa paixo nos interpreta mal. 
RAINHA CATARINA - Pois tanto pior para ambos. Eu pensava que ambos fsseis homens santos;  
certo, por minha alma, duas cardeais virtudes e eminentes. Mas ambos no passais, receio-o muito, de 
pecados cardeais, coraes falsos. Que vergonha, senhores! Reformai-vos! Esse  o vosso consolo, o 
lenitivo que trazeis a uma dama desgraada? a uma mulher perdida neste meio, ridicularizada, 
escarnecida? Nem a metade, ao menos, vos desejo das infelicidades que me oprimem. Tenho mais 
caridade. Mas lembrai-vos de que ora vos advirto. Tomai tento, pelo cu, porque o fardo de meus males 
sobre vs no recaia. 
WOLSEY - Nobre dama, estais fora de vs; isso  delrio; em suspeita mudais os bons intentos. 
RAINHA CATARINA - E vs a mim, em nada. Amaldioados sejam todos os falsos conselheiros 
como vs. Querereis - se piedade tivsseis, sentimento de justia, se de membros da Igreja possusseis 
alguma coisa mais do que a roupagem - que nas mos minha causa eu depusesse de quem s me tem 
dio? Ai! h que tempo da afeio do monarca estou banida, e tambm do seu leito! J estou velha, meus 
senhores; agora s perdura de nossa ligao minha obedincia. Que  que de pior podia acontecer-me 
alm dessa desgraa? Vosso esforo me acarretou a maldio que vedes. 
CAMPEIO - O pior  Vosso medo. 
RAINHA CATARINA - Vivi tanto - deixai que eu mesma o diga, que a virtude com amigos no 
conta - como esposa dedicada e - declaro-o sem vanglria - sem que a suspeita nunca me tivesse 
lanado o seu ferrete; tendo sempre dedicado ao monarca o meu afeto; depois de Deus, amando-o; 
obedecendo-lhe, levando meu amor  idolatria, chegando mesmo, para ser-lhe amvel, a descuidar das 
oraes, e tudo para premiada ser desta maneira? Oh!  duro, senhores! Apontai-me uma mulher 
constante a seu marido, uma mulher que nunca uma alegria sonhado houvesse alm do prazer dele, a 
aps ter ela feito tudo, tudo, a meu favor um mrito eu reclamo: minha grande pacincia. 
WOLSEY - Nobre dama, fugis dos bons intuitos que nos movem. 
RAINHA CATARINA - No quero cometer, milorde, o crime de renunciar de grado ao nobre ttulo 
que me ligou ao vosso soberano. Somente a morte pode divorciar-me de minha dignidade. 
WOLSEY - Ora atendei-me. 
RAINHA CATARINA - Antes o p nunca eu tivesse posto no solo da Inglaterra. nem provado da 
lisonja que nele cresce tanto. Tendes o rosto de anjo, mas  certo que vossos coraes o cu conhece. 
Qual ser a sorte desta desgraada? No h mulher to infeliz quanto eu. 
(A suas damas de companhia.) 
Ah, pobrezinhas! que futuro tendes, naufragadas num reino onde a esperana no medra, nem 
amigos, nem piedade; onde por mim no chora um s parente e onde mal me concedem um sepulcro! 
Como a aucena, outrora soberana dos campos, onde havia florescido, pendo a cabea e morro. 
WOLSEY - Se pudesse Vossa Graa chegar a convencer-se de que nossos intuitos so honestos, 
mais tranqila ficara. Por que causa, boa dama, por que motivo havamos de vos prejudicar? Ah! nossos 
postos, o carter de nossa dignidade, nos impedem de tal. Curar as mgoas  nossa misso prpria, no 
seme-las. Pelo cu, refleti no que fizerdes, como podeis prejudicar-vos, como, com tal procedimento, 
podereis afastar-vos de todo do monarca. O corao dos prncipes d beijos na obedincia, a tal ponto 
gosta dela; mas, em frente aos espritos teimosos, levantam-se, explodindo to terrveis como as grandes 
tormentas. Estou certo de que sois de gentil e nobre gnio, de alma to calma como o mar tranqilo. Pelo 
que somos, por favor, tomai-nos: mediadores da paz, amigos, servos. 
CAMPEIO - Senhora, haveis de convencer-vos disso. Prejudicais demais vossa virtude com esse 
medo de mulheres dbeis. Um esprito nobre como o vosso rejeita essas suspeitas como moedas de cunho 
duvidoso. O rei vos ama. Cuidai de conservar sempre o amor dele. Se confiardes em ns, estamos
prontos a provar nosso zelo de servir-vos. 
RAINHA CATARINA - Fazei o que quiserdes, meus senhores, e desculpai-me, por favor, no caso de 
eu me ter comportado incivilmente. Sabeis que sou mulher e que careo da arte de conversar com 
propriedade com pessoas to altas. Meus respeitos oferecei a Sua Majestade; fazei-me esse favor. Ele 
ainda  dono do corao que neste peito bate, e enquanto eu tiver vida, ser dono de minhas oraes. 
Vinde, mui dignos padres, aconselhai-me. Agora implora quem no pensou desde o primeiro dia que to 
cara a realeza lhe sairia. 
(Saem.) 
CENA II 
Antecmara dos apartamentos do rei. Entram o Duque de Norfolk, o Duque de Suffolk, o Conde de 
Surrey e o Lorde Camareiro. 
NORFOLK - Se em vossas queixas ora vos unirdes e com vossa insistncia as reforardes, ao cardeal 
resistir ser impossvel. Mas no caso de no aproveitardes esta oportunidade, s vos digo que tereis de 
agentar novas desgraas, alm das que j tendes. 
SURREY - Rejubilo-me por achar ocasio, embora mnima, que lembrado me faz de que meu sogro, 
o duque, tem de ser vingado nele. 
SUFFOLK - Qual dos pares no foi menosprezado por ele, ou, quando nada, por maneira sempre 
estranha, esquecido? Em que pessoa, tirante a prpria, ao cunho da nobreza respeito ele mostrou? 
CAMAREIRO - Falais, milordes, somente o que sentis. Sei bem o que ele de mim e vs merece; 
mas, se h modo de contra ele fazermos qualquer coisa, nesta oportunidade.  o que duvido. Se o 
caminho barrar-lhe no puderdes que vai ter at ao rei, no tenteis nada nesse sentido, pois a lngua dele 
sobre o monarca exerce poder mgico. 
NORFOLK -- Oh! nada de receios! Seu feitio sobre o rei j acabou. pois o monarca contra ele 
descobriu alguma coisa que h de estragar o mel de seus discursos de uma vez para sempre. Ele se 
encontra definitivamente mergulhado no desprazer do rei. 
SURREY - Como eu ficara satisfeito de ouvir uma notcia como essa de hora em hora! 
NORFOLK -  verdadeira, podeis acreditar. Sua conduta, dplice, no divrcio est patente. Nisso ele 
apareceu como eu quisera que aparecesse meu pior inimigo. 
SURREY - Como se descobriram seus embustes? 
SUFFOLK - Do modo mais estranho. 
SURREY - Oh! Como? Como? 
SUFFOLK - A carta que o cardeal mandara ao papa se extraviou, vindo ter s mos do rei, e o rei viu 
que o cardeal pedia instante a Sua Santidade que parasse com a sentena a respeito do divrcio, "porque, 
sendo alcanado", acrescentava, " certo o rei achar-se apaixonado por uma das criaturas da rainha, Ana 
Bolena". 
SURREY - O rei tem essa carta? 
SUFFOLK - Ficai certo. 
SURREY - E ser de algum efeito? 
CAMAREIRO - O rei, com isso, v como ele corta direito ou se desvia nos caminhos de seus 
prprios intentos. Mas sobre isso falham todas as artes; o remdio chega depois da morte do paciente: o 
rei j desposou a bela dama. 
SURREY - Oh, quem nos dera! 
SUFFOLK - Possa esse desejo deixar-vos venturoso, pois afirmo-vos que j est realizado.
SURREY - Alegremente sado esse consrcio. 
SUFFOLK - Digo amm. 
NORFOLK - Como todos o fazem. 
SUFFOLK - J esto sendo dadas as ordens para a coroao. Mas isso  novidade muito fresca, no  
para ser dita a toda a gente. Mas, meus senhores, ela  uma criatura realmente extraordinria, assim no 
esprito como na forma extrema. Estou convicto de que dela vir tal ou qual bno para esta terra, digna 
de memria. 
SURREY - E o rei vai engolir aquela carta do cardeal? No permita Deus tal coisa. 
NORFOLK - Com a breca! Amm. 
SUFFOLK - No, no! H outras vespas que em torno do nariz lhe esto zumbindo, para apressar o 
efeito da picada. Sem despedir-se, o Cardeal Campeio partiu furtivamente para Roma. No deu remate  
causa do monarca. Foi despachado no papel de agente do nosso Cardeal Wolsey, para fora dar a suas 
intrigas. Asseguro-vos que o rei disse "Ah!" ao ter notcia disso. 
CAMAREIRO - Que Deus o deixe exasperado, para dizer "Ah!" com mais fora. 
NORFOLK - Mas, milorde, quando retorna Cranmer? 
SUFFOLK - J se encontra de volta, sempre fiel  sua antiga maneira de pensar, e, juntamente com 
os colgios de mais subida fama de toda a cristandade, justifica o divrcio do rei. Dentro de pouco, quero 
crer, o segundo casamento ser tornado pblico, assim como a coroao da nova soberana. Catarina no 
mais ser chamada de rainha, porm princesa e viva do falecido Artur. Oh! esse Cranmer  um sujeito 
de peso; teve muito trabalho com os negcios do monarca. 
SUFFOLK - Decerto; e ainda havemos de, por isso, v-lo como arcebispo. 
NORFOLK - Ouvi falar a esse respeito. 
SUFFOLK -  certo. Eis o cardeal! 
(Entram Wolsey e Cromwell.) 
NORFOLK - Observai-o! observai-o! Est zangado. 
WOLSEY - Entregastes ao rei o embrulho, Cromwell? 
CROMWELL - No quarto de dormir; dei-lho em mo prpria. 
WOLSEY - Viu de que se tratava? 
CROMWELL - Na mesma hora tirou o selo, e o que pegou primeiro leu com ar muito srio, 
revelando grande preocupao. Mandou dizer-vos que hoje bem cedo visseis esper-lo. 
WOLSEY - Pretende sair logo? 
CROMWELL - Penso que ele no deve demorar. 
WOLSEY - Deixai-me agora por uns instantes. 
(Sai Cromwell.) 
( parte.) 
Deve ser a Duquesa de Alenon, irm do Rei da Frana.  essa que ele h de escolher para esposa. 
Ana Bolena! No, no quero para ele a Ana Bolena. No basta ter uma bonita cara. Ora, Bolena! No 
queremos nada com Bolena nenhuma. Que demora com as notcias de Roma! Ora, a Marquesa de 
Pembroke! 
NORFOLK - Ele no est contente. 
SUFFOLK - Talvez j saiba que contra ele a clera o rei j est afiando. 
SURREY -  Deus! deixai-a com bom corte, se fores justo em tudo. 
WOLSEY - Dama de companhia da rainha, filha de um cavaleiro, ama da ama, rainha da rainha! 
Esta candeia no est dando chama muito clara. Tenho de espevit-la. Ento, que acabe. Tem mrito e  
virtuosa... Mas, que importa? Sei que ela  luterana apaixonada. No  saudvel para nossa causa que ela 
repouse do monarca ao peito, que to dificilmente  governado. Depois, apareceu recentemente um
hertico, um hertico dos piores, esse Cranmer, que no nimo do rei soube insinuar-se e agora  dele o 
orculo. 
NORFOLK - Alguma coisa o deixa preocupado. 
SURREY - Desejara que fosse alguma coisa que lhe estragasse a corda, a corda mestra do corao. 
(Entra o rei, lendo um codicilo, e Lovell.) 
SUFFOLK - O rei! O rei vem vindo! 
REI HENRIQUE - Que quantidade imensa de riquezas soube ele acumular para si prprio, e que 
enormes despesas a toda hora de suas mos escoam. De que modo pode ele conciliar as duas coisas? - 
Ento senhores, vistes o cardeal? 
NORFOLK - Aqui nos encontrvamos milorde, a observ-lo. Algo estranho tem no crebro: morde 
os lbios, assusta-se, detm-se subitamente, os olhos no cho crava e, de repente, leva o dedo  fronte; 
sem que se espere, gil estuga os passos; depois, detm-se, o peito fere duro, volvendo a olhar mais uma 
vez  lua. Nas mais estranhas posies o vimos. 
REI HENRIQUE - Pode ser que em revolta tenha o esprito. Papis do Estado esta manh 
mandou-me, conforme lhe pedira. Podereis acaso imaginar o que entre os mesmos fui encontrar, por 
pura inadvertncia, posso vos garantir, da parte dele? O inventrio, em verdade, relativo sua prataria, 
seus tesouros, finssimos tecidos, ornamentos de sua casa que julga serem mostras de excessiva 
opulncia, que ultrapassa de muito as posses de qualquer vassalo. 
NORFOLK - O cu tem parte nisso; algum esprito decerto entre os papis ps essa lista para com 
ela os olhos abenoar-vos. 
REI HENRIQUE - Se acreditar pudssemos que suas meditaes pairavam sobre a terra e alguma 
multa espiritual visavam, pudera prosseguir no devaneio. Mas receio que sejam sublunares suas idias e, 
por isso, indignas de sria reflexo. 
(Senta-se no trono e fala baixo a Lovell, que se dirige a Wolsey.) 
WOLSEY - Deus me perdoe! Que o cu proteja sempre Vossa Alteza. 
REI HENRIQUE - Meu bondoso senhor, mostrais-vos cheio de coisas celestiais e guardais na alma o 
inventrio da graa mais preciosa, que decerto releis neste instante. Ser difcil para vs, desse cio pio 
tirar o mais fugaz momento para as contas terrestres. Considero-vos a esse respeito um pssimo 
intendente e alegre me declaro por achar-vos muito igual a mim mesmo neste ponto. 
WOLSEY - Meu soberano, eu tenho um tempo para meus deveres sagrados, outro para dedicar aos 
negcios que me forem designados no Estado. A natureza, por sua vez, a fim de conservar-se, reclama 
alguns momentos que eu, por fora, como seu filho frgil e no jeito de meus irmos mortais, tenho de 
dar-lhe. 
REI HENRIQUE - Palavras acertadas. 
WOLSEY - Desejara que Vossa Alteza associasse sempre - como por merec-lo hei de esforar-me 
- com as palavras meus atos acertados. 
REI HENRIQUE - Novamente bem dito; com acerto j procede quem fala desse modo. No 
entretanto, palavras no so atos. Meu pai vos estimava; assim dizia, tendo com os atos coroado o dito. 
Desde que o sucedi, sempre vos tive perto do corao. Assegurei-vos posies de proventos vantajosos. 
Mais: entrei em meu prprio patrimnio para vos estender meus benefcios. 
WOLSEY ( parte) - Que querer ele dizer com isso? 
SURREY ( parte) - Deus faa prosperar este negcio. 
REI HENRIQUE - Fiz de vs o primeiro homem do Estado, o primeiro, pois no? Dizei-me, 
peo-vos, se confirmais o que ora vos declaro. No caso de o fazerdes, respondei-nos se nos deveis 
obrigao por isso. Que nos dizeis? 
WOLSEY - Meu digno soberano, confesso que as reais graas diariamente sobre mim derramadas
ultrapassam de muito quanto eu vos fazer pudesse. Sim, vencem mesmo todo esforo humano. Sempre 
aqum meus esforos se deixaram ficar de meus desejos, porm nunca de minha habilidade. Meus 
intuitos pessoais s mereciam ser chamados de pessoais na medida em que tendiam para o bem da pessoa 
sacratssima de Vossa Majestade e o bem do Estado. Por todas essas graas derramadas sobre mim, to 
indigno e pequenino, s agradecimentos de vassalo vos posso dirigir e minhas preces ao cu por vs, 
assim como a lealdade muito prpria, que tem sempre crescido e sempre h de crescer, at que a morte, 
esse inverno, a aniquile. 
REI HENRIQUE - Bela frase; retrata um obediente e fiel sdito. A honra o recompensa, como o 
oprbrio; caso contrrio, ser o seu castigo. Penso que ao tempo em que com benefcios vos estendia a 
mo, sincero afeto por vs do corao se me expandia, honras do trono sobre vs chovendo, mais do que 
sobre outra qualquer pessoa. Por isso tudo, vossa mo, o crebro, o corao e todas as partculas de vosso 
ser deviam - no por fora dos deveres gerais da vassalagem, mas, por assim dizer, por um afeto muito 
particular - ser-me afeioados, a mim, o vosso amigo, mais que aos outros. 
WOLSEY - S sei dizer que sempre hei trabalhado mais para o bem de Vossa Majestade do que para 
o meu prprio. Assim fui sempre, assim sou e hei de ser. Embora todos os homens viessem a quebrar as 
juras que a vs os prendem, arrancando-as da alma; muito embora os perigos se amontoassem em maior 
quantidade do que pode representar o prprio pensamento, sob formas pavorosas me surgindo: ainda 
assim, qual penedo em meio s ondas impetuosas, o meu dever de sdito desviaria a torrente irresistvel e 
se conservaria sempre vosso. 
REI HENRIQUE - Palavras muito nobres. Tomai nota, senhores, que ele tem muito leal peito, pois o 
vistes aberto. Ora lede isto. 
(Entrega-lhe uns papis.) 
E, em seguida, isto; e, aps, o vosso almoo, se apetite tiverdes para tanto. 
(Sai o rei, lanando um olhar colrico para o Cardeal Wolsey; os nobres se apressam a segui-lo, 
sorrindo e cochichando uns com os outros.) 
WOLSEY - Que quer dizer tudo isso? Essa ira sbita? Como fui provoc-la? Ele afastou-se com o 
rosto carrancudo, parecendo dos olhos irradiar minha runa.  desse modo que o leo furioso encara o 
ousado caador; ferido, muito embora, o aniquila.  necessrio que eu leia este papel. Temo que nele se 
ache a histria de toda a sua clera.  isso mesmo; esta folha aniquilou-me.  a relao do mundo de 
riquezas que eu amontoei para proveito prprio, especialmente para ver se a sede do papado alcanava, e 
meus amigos de Roma, assim, pagar. Oh negligncia! digna de pr um imbecil por terra! Que demnio 
maldoso me teria levado a colocar este segredo de tamanha importncia no pacote que eu mandei para o 
rei? No h recurso para remediar isto? Traa alguma que esta idia do crebro lhe tire? Sei que ele vai 
ficar muito abalado; mas um meio conheo, que no caso de ser bem aplicado - embora a sorte se possa 
opor - me tirar do aperto. Que ser isto? "Ao Papa!" A prpria carta que eu enviei a Sua Santidade! Por 
minha vida! Agora est acabado. No h remdio. J alcancei o ponto mais alto da grandeza, e desse 
pleno meridiano de minha grande glria baixarei apressado para o ocaso. Vou cair como um lcido 
meteoro, que ningum mais enxerga. 
(Voltam os Duques de Norfolk e de Suffolk, o Conde de Surrey e o Lorde Camareiro.) 
NORFOLK - Escutai o prazer do rei, cardeal. Entregar-vos ordena sem delongas em nossas mos o 
selo e  casa de Asher vos recolher,  sede do bispado de Winchester, at novas mais precisas terdes de 
Sua Alteza. 
WOLSEY - Alto! Onde se acham vossos plenos poderes? S palavras nunca trazem to grande 
autoridade. 
SUFFOLK - Quem pode contrari-las, se da boca do rei, diretamente, elas dimanam? 
WOLSEY - At que eu veja mais do que palavras, ou vontade somente e a falsidade que vos
caracteriza, ficai certos, senhores oficiosos, que eu me atrevo, que eu devo contest-las. Vejo agora de 
que metal grosseiro fostes feitos: de inveja. Com que empenho seguis todos minha desgraa, como se 
alimento dela mesma tirsseis! Que brandura, que maciez revelais em tudo quanto pode apressar-me a 
queda! Em vosso curso de inveja continuai, homens maldosos; os deveres cristos vos do apoio; mas h 
de vir o tempo em que, sem dvida, sereis recompensados. Este selo que de mim reclamais com tanto 
empenho, o soberano - meu senhor e vosso - com suas mos me deu, asseverando que em toda a minha 
vida eu gozaria do posto e dignidade a ele inerentes. E para sua generosidade deixar bem clara, 
confirmou o dito com suas cartas patentes. Assim sendo, quem se atreve a tomar-mo? 
SURREY - O rei, que o deu. 
WOLSEY - Que seja ele em pessoa, ento. 
SURREY - No passas de um traidor arrogante, padre. 
WOLSEY - Mentes, lorde atrevido! H quarenta horas, Surrey preferiria ter queimado a lngua a 
falar desse modo. 
SURREY - Tua empfia,  pecado escarlate, esta chorosa terra privou do muito nobre Buckingham, 
meu sogro. Todas as cabeas, todas de teus irmos cardeais, contigo e quanto tiveres de melhor, pesavam 
menos que um s cabelo dele. A peste leve toda a vossa poltica. Enviastes-me para a Irlanda, 
afastando-me da ajuda que podia prestar-lhe, do monarca, de quantos o teriam desculpado do crime a ele 
imputado, enquanto a vossa grande bondade, por piedade santa, o absolveu com um machado. 
WOLSEY - Isso, e assim tudo quanto este lorde falador quisesse doravante assacar-me, afirmo,  
falso. Por lei o duque recebeu seu prmio. De como eu fui isento de maldade particular na queda dele, 
prova-o o nobre jri e a prpria ao nefanda. Milorde, se eu gostasse de discursos muito compridos, ora 
vos diria que sois destitudo tanto de honra como de honestidade e que a respeito de lealdade e verdade 
ao soberano - meu sempre leal senhor - me considero melhor homem que Surrey e que todos quantos 
suas loucuras aprovavam. 
SURREY - Padre, essa roupa longa vos protege, por minha alma. Se no fora isso, havias de sentir 
minha espada no teu sangue. Podeis, milordes, continuar ouvindo por mais tempo tamanhas arrogncias? 
E logo deste tipo? Se mostrarmos mansido a esse ponto, que permita a um retalho escarlate fazer pouco 
de ns todos, ento: adeus, nobreza! Que prossiga Sua Graa e vos enxote com seu chapu, tal como a 
cotovias. 
WOLSEY - Para esse estmago  veneno o mrito. 
SURREY - Sim, mas o mrito de haver reunido por meio da extorso toda a riqueza da terra em 
vossas mos, cardeal; o mrito do embrulho interceptado, da missiva que para o papa contra o rei 
mandastes. J que me provocastes, vosso mrito vai ficar conhecido  saciedade. Milorde de Norfolk, se 
 que de nobre famlia descendeis e fazeis caso do bem-estar de todos, da grandeza de nossa condio 
espezinhada, de nossos filhos que, dificilmente, se ele viver, viro a ser fidalgos, lede a lista de todos os 
seus crimes, o resumo de todos os seus atos. Muito mais assustado vou deixar-vos do que o sagrado sino, 
quando aquela rapariga morena em vossos braos se recosta, cardeal, e vos d beijos. 
WOLSEY Como eu podia desprezar este homem, se no fosse impedir-me a caridade! 
NORFOLK - Milorde, a lista de seus crimes se acha com o prprio rei, mas basta que o declare: so 
todos horrorosos. 
WOLSEY - Mais formosa com isso, e imaculada, h de mostrar-se minha inocncia, quando o 
soberano conhecendo ficar minha lealdade. 
SURREY - Isso no vai salvar-vos. Felizmente tenho boa memria; ainda me lembro de alguns itens 
da lista. Vou diz-los. Se capaz de corar ainda fordes, cardeal, e de dizer "culpado" a tudo, um resto 
mostrareis de honestidade. 
WOLSEY - Falai, senhor, pois desafio vossas acusaes. Corar eu poderia, mas por ver um fidalgo
que de todo perdeu a compostura. 
SURREY - Antes perd-la que perder a cabea. E agora ouvi-me. Primeiro, sem que o rei tivesse tido 
cincia disso ou nisso consentido, conseguistes o posto de legado, com o que mutilastes os direitos de 
nossos bispos. 
NORFOLK - A seguir, em tudo quanto escreveis para o rei e para prncipes estrangeiros, sempre 
usveis a pretensiosa frmula seguinte: "Ego et Rex meus" com o que do rei fazeis um subalterno vosso. 
SUFFOLK - Mais, ainda: sem ter o rei nem o Conselho cincia, quando de embaixador servistes 
junto do imperador, tivestes a ousadia de a Flandres carregar o grande selo. 
SURREY - Item, poderes plenos de vs teve Gregrio de Cassado, para um pacto firmar entre 
Ferrara e Sua Alteza, sem de nada saber o rei e o Estado. 
SUFFOLK - Depois, por simples ambio, mandastes gravar vosso chapu sagrado em todas as 
moedas do rei. 
SURREY - Depois, enviastes somas enormes - deixo agora  vossa conscincia os meios por que 
foram ganhas - para Roma comprar e abrir caminho para mais altos postos; isso tudo sob as runas do 
pas inteiro. H mais; porm por serem coisas vossas, so odiosas; no vou sujar a boca. 
CAMAREIRO -  senhor! no faais presso to grande contra um homem que cai;  caridade. s 
leis esto patentes suas faltas; que elas, no vs, se incumbam de puni-lo. Aperta-se-me o corao por 
v-lo precipitado de to grande altura. 
SURREY - Por mim, perdo-lhe. 
SUFFOLK - Lorde Cardeal, eis o que o rei decide: tendo em vista que quanto ultimamente 
praticastes dentro deste pas, na qualidade de legado, se encontra no domnio de um praemunire, contra 
vs se expressa uma ordem de confisco, relativa a tudo o que possus, terras, castelos e quanto mais 
tiverdes, declarando-vos fora da proteo do soberano. Essa  a minha mensagem. 
NORFOLK - E com isso a vossas reflexes vos entregamos, para vos reformardes. Quanto  vossa 
resposta de h momentos, obstinada, de no nos entregar o grande selo, o rei ser informado e, 
certamente, vos agradecer. E agora, adeus, meu pequenino e bom Lorde Cardeal. 
(Saem todos, com exceo de Wolsey.) 
WOLSEY - Adeus ao pouco bem que me votveis. Adeus, um longo adeus a toda a minha grandeza. 
Esse  o destino de todo homem: hoje lhe nascem as folhinhas tenras da esperana; amanh ele floresce, 
carregado ficando de honrarias; mas no terceiro dia vem a geada, uma geada mortal, e no momento 
preciso em que ele - quo simplrio e calmo! - cr que sua grandeza est madura, ela a raiz lhe morde, 
caindo ele tal como agora eu caio. Aventurei-me como crianas que nadam com bexigas, durante estios 
vrios num oceano de glrias, mas profundo em demasia. Minha vaidade, inflando-se ao extremo, 
arrebentou sob mim, ora deixando-me cansado e envelhecido no servio, ao sabor de uma rude 
correnteza que para sempre acabar tragando-me. Glrias vs deste mundo, pompas fteis, tenho-vos 
dio! O corao se me abre a novos sentimentos. Triste a sorte de quem depende do favor dos prncipes! 
Entre o sorriso a que ele aspira tanto, o aspecto prazenteiro do monarca, e sua runa h mais angstia e 
medo do que na guerra ocorre ou nas mulheres. E quando a queda vem, quem cai  Lcifer, privado da 
esperana. 
(Entra Cromwell, com aspecto consternado.) 
Que  que h, Cromwell? 
CROMWELL - Para falar, senhor, no tenho foras. 
WOLSEY - Como! Minha desgraa te consterna? Admitir teu esprito no pode que um grande 
homem decline? Estais chorando! Devo, ento, ter cado de verdade. 
CROMWELL - Como vai Vossa Graa? 
WOLSEY - Bem, decerto; nunca fui to feliz, bondoso Cromwell. Agora me conheo. No meu
ntimo sinto uma paz que paira sobre todas as dignidades terrenas, uma conscincia clara e tranqila. 
Devo ao rei a cura; agradecido sou a Sua Graa, humildemente o digo. Destes ombros, por piedade, tirou 
pesado fardo que afundar poderia at uma frota: honra excessiva. Oh! que pesado fardo!  um fardo, meu 
bom Cromwell excessivo para quem pe no cu toda a esperana. 
CROMWELL - Alegro-me por ver que Vossa Graa compreende a situao por essa forma. 
WOLSEY - Penso que sim, convicto estando agora - graas  fora que no peito sinto - de que 
suportarei mais sofrimentos e muito mais intensos do que quantos meus inimigos de nimo mesquinho a 
me infligir se atrevam. Que h de novo? 
CROMWELL - A novidade pior e mais penosa  a boa graa do rei terdes perdido. 
WOLSEY - Deus o ampare! 
CROMWELL - A segunda  que nomeado foi em vosso lugar Sir Toms More;  o Lorde Chanceler. 
WOLSEY -  um tanto sbita, parece-me, a ascenso; mas  pessoa de saber comprovado. Fao 
votos para que ele por muito tempo saiba conservar-se nas graas do monarca e a justia aplicar segundo 
as regras imparciais do dever e da conscincia. Desse modo seus ossos, quando o curso completado ele 
houver e j se achar na bem-aventurana adormecido, alcanaro um tmulo banhado nas lgrimas dos 
rfos. H outras novas? 
CROMWELL - Cranmer voltou e foi bem recebido; foi nomeado Arcebispo de Canturia. 
WOLSEY - Oh! isso  novidade! 
CROMWELL - Finalmente, que Lady Ana, com quem muito em segredo havia muito tempo, o rei 
casara, hoje foi vista em pblico, quando ia para a capela real, sendo tratada como rainha. S se fala 
agora em sua coroao. 
WOLSEY - Foi esse peso que me jogou por terra. Oh Cromwell, Cromwell! O rei se me escapou.  
para sempre, para sempre que eu perco minhas glrias nessa nica mulher. Jamais o sol voltar a 
proclamar minha grandeza nem a doirar de novo os novos grupos que sempre meus sorrisos aguardavam. 
Afasta-te de mim, bondoso Cromwell; sou um pobre homem decado, indigno de ser agora teu senhor e 
mestre. Vai procurar o rei. Jamais ocaso h de ter este sol,  o que desejo. Quem s lhe disse e quanto 
verdadeiro. Decerto h de ajudar-te. Algum resqucio de considerao a meu respeito - conheo-lhe a 
alma nobre - h de impedi-lo de apagar teu servio meritrio. Bondoso Cromwell, no te esqueas dele; 
cuida de teu futuro, promovendo tua estabilidade. 
CROMWELL -  meu senhor! Vou deixar-vos? Foroso , ento, que eu perca to bondoso senhor, 
to leal e nobre? Atestem-me as pessoas que de ferro no tm o corao, em como  cheio de tristeza que 
Cromwell se despede de seu senhor e mestre, O soberano meus servios ter; mas minhas preces sempre 
vossas sero, oh! sempre, sempre! 
WOLSEY - Cromwell, nunca pensei que uma s lgrima viria a derramar em minha queda. Mas com 
tua lealdade e singeleza ao papel de mulher me reduziste. Enxuguemos os olhos. E ora escuta-me. 
Quando esquecido eu j estiver - que  certo vir a s-lo - e dormir no frio mrmore, quando ningum 
pronunciar meu nome, dirs que eu te mostrei, dirs que Wolsey - que as estradas da glria percorrera e 
os abismos sondara mais profundos e as sirtes do comando - em seu naufrgio te mostrou o caminho da 
grandeza, o caminho seguro e confortvel que ele prprio perdera. Observa apenas minha queda e o que 
fez minha runa. Despe-te de ambio, Cromwell, te peo. Esse pecado derrubou os anjos; como til 
poderia ser aos homens, de Deus feitos  imagem? No reveles egosmo; ama aos prprios inimigos. No 
lucrars por meio do suborno mais do que com a verdade. Traze sempre na destra a doce paz, pala que as 
lnguas invejosas reduzas ao silncio. Se justo e nada temas. Que tuas metas se identifiquem sempre com 
as da ptria, de Deus e da verdade, pois,  Cromwell! no caso de cares, tua queda ser a de um grande 
mrtir. Serve ao rei e, por obsquio, deixa-me. O inventrio fars de tudo quanto tenho, tudo, at o ltimo 
pni; ao rei pertence. Minha lealdade ao rei e minhas vestes  tudo o que me resta.  Cromwell,
Cromwell! Se ao meu Deus eu tivesse revelado metade, s, do zelo com que sempre servi o soberano, ele 
decerto no me teria, nesta idade, entregue nu aos meus inimigos. 
CROMWELL - Meu bondoso senhor, tende pacincia. 
WOLSEY - Tenho muita. Esperana da corte, agora, adeus; minha esperana se concentra em Deus. 
(Saem.) 
ATO IV 
CENA I 
Uma rua de Westminster. Entram dois gentis-homens, que se encontram. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Mais uma vez, bem-vindo. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Como vs. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Viestes tomar lugar, porque a Lady Ana possais ver, quando vier 
da coroao? 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Perfeitamente. Ao nosso ltimo encontro deixava o tribunal o 
grande Duque de Buckingham. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Porm naquele dia tudo era s tristeza. Hoje, por toda parte reina a 
alegria. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - E com razo. Os cidados revelam plenamente que dedicados so 
ao rei e ao trono. Faamos-lhe justia; sempre se acham prontos a celebrar esta efemride com 
representaes, trofus e emblemas. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Mas nunca festivais houve to belos, isso asseguro, nem mais 
adequados. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Se desculpardes a pergunta, posso saber que papel  esse? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Ora, sem dvida.  a relao dos que vo pedir hoje novos postos, 
de acordo com o costume dia coroao.  o primeiro o Duque de Suffolk, que deseja ser nomeado 
gro-senescal; o Duque de Norfolk vem depois, como conde-marechal. Lede o resto vs mesmo. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Agradecido; se eu j no conhecesse esse costume, vosso papel 
muito til me seria. Mas, por favor, dizei-me: que foi feito de Catarina? Falo da princesa viva. Em que 
p est o seu negcio? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Poderei informar-vos. O Arcebispo de Canturia, com vrios 
outros membros reverendos e sbios de sua ordem, reuniu uma corte de justia h pouco, em Dunstable, 
distante s seis milhas de Ampthill, onde a princesa est morando, a qual diversas vezes foi citada, mas 
no apareceu. Para ser breve: por causa de sua ausncia e dos escrpulos recentes do monarca, 
proclamado foi o divrcio por geral consenso dos sbios personagens, sem efeito tendo ficado o 
casamento de ambos. Transferida depois foi ela para Kimbolton, onde agora se acha doente. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Pobre senhora! 
(Toque de trombetas.) 
Toque de trombetas! Basta, basta! A rainha vem chegando. 
(A ordem do cortejo). (Obos.) 
1 - Dois juizes. 
2 - O Lorde Chanceler, precedido da bolsa e da maa. 
3 - Coristas cantando. 
(Msica.)
4 - O prefeito de Londres, com a maa; depois, o rei de armas, em traje de rigor, trazendo na cabea 
uma coroa de cobre dourado. 
5 - O Marqus Dorset, com um cetro de ouro, trazendo na cabea uma meia coroa de ouro. Com ele 
vem o Conde de Surrey com o basto de prata encimado por uma pomba, trazendo na cabea uma coroa 
de conde; ao pescoo, colar da ordem, em forma de SS. 
6 - O Duque de Suffolk, com seu manto de Estado, coroa pequena na cabea, empunhando a varinha 
branca do gro-senescal. Com ele, o Duque de Norfolk, com o basto de marechalato e coroa pequena. 
Colar de SS. 
7 - Um dossel carregado por quatro bares dos Cinco-Portos; sob ele, a rainha, em traje de 
cerimnia; est coroada e com os cabelos enfeitados de prolas. Ladeiam-na os Bispos de Londres e de 
Winchester. 
8 - A velha Duquesa de Norfolk com uma grinalda de flores de ouro, sustentando a cauda da rainha. 
9 - Numerosas damas nobres ou condessas com simples aros de ouro na cabea, sem flores. 
(Atravessam o palco em ordem e com solenidade.) 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Por minha vida! um squito admirvel! Conheo aqueles. Quem 
carrega o cetro? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - O Marqus Dorset; o basto  o Conde de Surrey que carrega. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM -  um gentil-homem nobre e valente. E aquele, porventura no ser 
o Duque de Suffolk? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - O mesmo; como gro-senescal. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - E esse, milorde de Norfolk? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Ele mesmo. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - (olhando para a rainha) - O cu te ampare! Tens o mais belo rosto 
que eu j vi. Senhor, por minha vida, ela  um anjo. No brao leva o rei ambas as ndias, sendo muito 
mais rico, oh! sem medida, quando nos braos cinge esta senhora. No censuro a conscincia do 
monarca. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Os que sobre ela o baldaquim sustentam, so quatro dos bares de 
Cinco-Portos. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Que homens felizes! e assim todos quantos se encontram perto 
dela. E acaso aquela que lhe segura a cauda do vestido no ser a veneranda e nobre dama, a Duquesa de 
Norfolk? 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Ela mesma, como condessas so todas as outras. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - As coroas o dizem. So estrelas todas elas; algumas, em declnio. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Sobre isso no falemos. 
(Sai a procisso ao toque estridente de fanfarras.) 
(Entra um terceiro gentil-homem.) 
Deus vos salve, senhor! Onde ficastes to assado? 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Na abadia, onde o povo se aglomera de modo tal, que nem um 
dedo fora possvel meter l. Quase me matam com tanta exuberncia de alegria. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Vistes a cerimnia? 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Vi. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - E o jeito? 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Mui digno de ser visto. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Bom amigo, contai-nos como foi. 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Do melhor modo que possvel me for. Tendo a rainha levado at 
um lugar no coro, a esplndida onda de nobres damas e senhores um tanto se afastou. L, Sua Graa
sentou-se um pouco, cerca de meia hora, num trono rico, ao povo patenteando toda a sua beleza. 
Acreditai-me, senhor: ela  a mulher mais admirvel que ao lado j dormiu de qualquer homem. Quando 
o povo a admirou assim de perto, levantou-se um barulho como fazem as enxrcias num mar em 
tempestade, assim violento e vrio: chapus, mantos, creio que at casacos, tudo voava. E se as cabeas 
fixas no se achassem, nesse dia perdidas ficariam. Nunca vi tanto jbilo; mulheres grvidas, na semana 
j do parto, como os velhos aretes de guerra, entre a turba se metiam, brechas abrindo facilmente. No 
podia ningum dizer: "Minha mulher  aquela", de tal maneira entrelaados todos num s bloco se 
achavam. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - E aps isso? 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Finalmente Sua Graa levantou-se e com passos modestos 
dirigiu-se para o altar, ajoelhou-se e, na postura de uma santa, no cu fitando os olhos, rezou 
devotamente. Levantando-se, fez uma reverncia para o povo. Aps isso, o Arcebispo de Canturia lhe 
deu as reais insgnias de seu posto: o leo sagrado, a coroa que j fora de Eduardo, o Confessor, a vara, a 
pomba da paz e todos os demais emblemas nobremente ao seu lado foram postos; logo depois, o coro, 
acompanhado da msica melhor de todo o reino cantou o Te Deum. Assim foi ela embora, com a mesma 
cerimnia com que viera, para o palcio de York, onde festejos se esto realizando. 
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Doravante, senhor, j no ser palcio de York. Isso foi no 
passado, pois o ttulo com a queda do cardeal ficou extinto. Ora  do rei e o nome de Whitehall. 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Perfeitamente. Porm to recente foi a mudana, que seu velho 
nome me ocorre mais amide. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Qual o nome dos dois bispos to graves que marchavam ao lado da 
rainha? 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Stokesly e Gardiner, um, Bispo de Winchester; foi promovido; 
secretrio do rei era at h pouco. O outro, Bispo de Londres. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - O de Winchester no  tido na conta de afeioado ao arcebispo, o 
virtuoso Cranmer. 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Todo o pas sabe isso. Por enquanto, porm, a divergncia ainda  
pequena. Mas se vier a aumentar, h de achar Cranmer um amigo que nunca h de deix-lo. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Quem pode ser? Dizei-me. 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Toms Cromwell, pessoa que desfruta de muito alto prestgio 
junto ao rei; amigo certo, sem dvida nenhuma. O rei fez dele o avaliador de seu real tesouro, j tendo 
sido nomeado para seu conselho privado. 
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - H de outros postos elevados obter. 
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Sim, nem h dvida. Vamos juntos, senhores; vou  corte; ali 
sereis meus hspedes; disponho de alguma autoridade. De caminho, sobre isso falaremos mais de espao. 
AMBOS - Estamos, meu senhor, s vossas ordens. 
(Saem.) 
CENA II 
Kimbolton. Entra a ex-Rainha Catarina, doente, conduzida por Griffith e Pacincia. 
GRIFFITH - Como se sente agora Vossa Graa? 
CATARINA - Oh Griffith!  mortal minha doena. Como galhos de chumbo tenho as pernas, 
dobradas para a terra e desejosas de se desvencilharem de seu fardo. Trazei-me uma cadeira. Assim; 
agora me sinto mais a gosto. No disseste, Griffith, quando me vinhas amparando, que esse famoso filho
da grandezas o Cardeal Wolsey, tinha falecido? 
GRIFFITH - Disse, minha senhora; mas pensava que ouvido no me tinha Vossa Graa, em virtude 
de vossos sofrimentos. 
CATARINA - Conta-me, por obsquio meu bom Griffith, de que modo morreu. Se morreu bem, 
partiu na minha frente certamente para me dar exemplo. 
GRIFFITH - Todos dizem, senhora, que foi bem. Aps ter sido detido em York pelo altivo Conde 
Northumberland e conduzido para justificar-se das mais graves culpas que pesavam sobre ele, mui de 
sbito sentiu-se doente e de tal modo fraco que nem pode montar em sua mula. 
CATARINA - Pobre homem! 
GRIFFITH - Finalmente, a muito custo, Leiscester alcanou, tendo apeado na abadia, onde foi bem 
recebido pelo abade com todos os seus monges, a quem falou assim: " padre abade, um ancio 
alquebrado pelas grandes tempestades do Estado, aqui se encontra para entre vs deixar os lassos ossos. 
Por caridade, concedei-lhe ao menos uma pouca de terra". Conduziram-no sem mais delongas para a 
cama, tendo feito a doena rpido progresso. E, j bem fraco, na terceira noite, pelas oito horas - que ele 
prprio havia predito que sua ltima seria - arrependido, em lgrimas banhado, contnuo meditar e 
ininterruptas preocupaes, restituiu ao mundo suas pompas, ao cu a imortal parte, e adormeceu em paz. 
CATARINA - E assim repouse Que no lhe pesem suas grandes faltas. Mas uma coisa, Griffith, me 
permite que a seu respeito eu diga, sem faltar-lhe com a caridade. Ele era um indivduo de orgulho 
desmedido, que gostava de se ombrear com os prncipes, um homem que por meios secretos conseguira 
dominar todo o reino. A simonia para ele era o normal; seu prprio arbtrio, toda a lei. At mesmo ante a 
evidncia assoalhava mentiras; sempre dobre nas intenes e em tudo o que dizia. Piedade no mostrava, 
salvo quando premeditava arruinar algum. No prometer, magnfico, tal como era ele ento; mas, quanto 
a realiz-las, tal como  agora: nada. Pecou muito na prpria carne, dando, assim, exemplo pssimo a 
todo o clero. 
GRIFFITH - Nobre dama, os defeitos dos homens so gravados no bronze, mas as boas qualidades 
escrevemo-las na gua. Vossa Alteza permitir que bem eu fale dele? 
CATARINA - Pois no, bondoso Griffith; de outro modo, maldosa eu me mostrara. 
GRIFFITH - Esse cardeal, apesar de sua origem muito humilde, foi fadado, decerto, desde o bero 
para altas honrarias. Foi um sbio maduro e mui capaz, de extraordinria sagacidade, sempre bem falante 
e de grande poder de persuaso. spero e altivo para os desafetos, mas, como o estio, doce para todos os 
que o iam procurar. E muito embora no adquirir ele fosse incontentvel - o que  grande pecado - 
revelava-se principesco no dar, nobre senhora. Sempre ho de provar isso esses dois gmeos da cincia 
que ele para vs criou: Oxford e Ipswich; um, que caiu com ele, por no querer sobreviver ao prprio 
benfeitor; o outro, embora ainda incompleto, de marcha ascensional to admirvel, que nunca deixar a 
cristandade de tecer-lhe elogios. Sua queda fez sobre ele chover felicidades, pois a partir da - nunca 
antes disso - pode adquirir conscincia de si prprio, felicidade achando na ventura de ser pequeno, o 
que lhe deu mais honras  velhice que os homens o fariam. Morreu temente a Deus. 
CATARINA - Depois de eu morta, no desejo outro arauto, mais brilhante relator de meus atos, 
porque fique da corrupo minha honra sempre isenta, do que um cronista honesto como Griffith. Quem 
em vida eu odiei, tu me obrigaste, com to pia modstia e reverncia, a honrar depois de morto. Em paz 
descanse. Fica perto de mim, Pacincia; deixa-me mais baixa um pouco; no vou dar-te incmodo por 
muito tempo mais. Bondoso Griffith, aos msicos ordena que ora toquem a ria tristonha que eu chamar 
costumo de meu dobre funreo, pois sentada me quedarei a meditar naquela celestial harmonia que mui 
breve terei de conhecer. 
(Msica triste e solene.) 
GRIFFITH - Est dormindo. Sentemo-nos, menina, bem quietinhos, para no despert-la. Sem
barulho, gentil Pacincia. 
(A viso. Entram solenemente, uma aps outra, seis personagens, vestidas de branco, com grinaldas 
de louro na cabea e mscara de ouro no rosto; nas mos trazem palmas de louro. Sadam primeiro a 
rainha e depois danam; a determinadas mudanas de figura, as duas primeiras sustentam sobre a cabea 
da rainha uma grinalda pequena, ao tempo em que as outras quatro se inclinam com reverncia. Depois, 
as duas que seguram a grinalda a passam para as duas seguintes, que observam a mesma ordem na 
mudana dos passos, mantendo-a sobre a cabea da rainha. Depois, passam-na para as duas ltimas, que 
repetem a cerimnia, com o que - como que por inspirao - a rainha faz no sono sinais de aprovao e 
levanta as mos para o cu. As aparies, sem parar de danar, desaparecem, levando a grinalda. A 
msica continua.) 
CATARINA - Espritos da paz, para onde fostes? J desaparecestes e na minha misria me 
deixastes? 
GRIFFITH - Aqui estamos, minha senhora. 
CATARINA - No falei convosco. Vistes algum entrar durante o tempo em que a dormir fiquei? 
GRIFFITH - Ningum, senhora. 
CATARINA - No? No vistes entrar neste momento um coro de anjos que me convidavam para um 
banquete? De brilhantes rostos, me iluminavam como o sol radioso, felicidade eterna me auguraram, 
lindas grinaldas me trouxeram, Griffith, que eu de aceitar ainda no sou digna.  cedo, porventura. 
GRIFFITH - Regozijo-me por ver, senhora, que to belos sonhos vos prendem os sentidos. 
CATARINA - Manda a msica parar;  dura e deixa-me abatida. 
(Cessa a msica.) 
PACINCIA - Notastes a mudana que de sbito Sua Graa apresenta? Como o rosto ficou mais 
longo! Como ela est plida e fria como argila! Os olhos vede-lhos! 
GRIFFITH - Est morrendo, filha. Reza! Reza! 
PACINCIA - Possa o cu ampar-la. 
(Entra um mensageiro.) 
MENSAGEIRO - Se Vossa Graa... 
CATARINA - Sois impertinente. No merecemos mais respeito, acaso? 
GRIFFITH - Censura mereceis, pois bem sabendo que ela abdicar no quer da costumeira majestade, 
falais com tal rudeza. Ajoelhai! Ajoelhai! 
MENSAGEIRO - Humildemente peo perdo a Vossa Majestade. A pressa foi que me deixou 
grosseiro. Ai fora h um gentil-homem que deseja falar-vos. Vem da parte do monarca. 
CATARINA - Griffith, manda-o entrar, mas que este tipo eu enxergar no torne. 
(Saem Griffith e o mensageiro.) 
(Volta Griffith com Capcio.) 
Se minha vista no me engana, da parte agora vindes do imperador, meu muito real sobrinho, e vos 
chamais Capcio. 
CAPCIO - Ele, senhora, servidor vosso. 
CATARINA -  meu senhor, os tempos e os ttulos mudaram muito, muito, desde que me ficastes 
conhecendo. Mas, por obsquio, que quereis de mim? 
CAPCIO - Em primeiro lugar, nobre senhora, a Vossa Graa oferecer meus prstimos; depois, o rei 
determinou que eu viesse fazer esta visita. Muito aflito ele est por saber-vos assim fraca e por meu 
intermdio vos envia suas reais condolncias, desejando sinceramente que crieis coragem. 
CATARINA -  meu senhor! Este encorajamento me chega muito tarde;  como graa depois da 
execuo. Esse remdio benigno, administrado em tempo certo, me teria curado. Mas agora, consolo 
algum me serve, se excetuarmos apenas a orao. E Sua Alteza como passa?
CAPCIO - Senhora, com sade. 
CATARINA - Que continue assim, florente sempre, quando eu morar com os vermes e meu pobre 
nome estiver banido deste reino. Pacincia, foi enviada aquela carta que eu te mandei fazer? 
PACINCIA - Ei-la, senhora. 
(Entrega a carta a Catarina.) 
CATARINA - Senhor, humildemente vos conjuro a entregar isto ao rei, meu soberano. 
CAPCIO - De bom grado, senhora. 
CATARINA - Recomendo nela  sua bondade a vera imagem de nosso casto amor, a filha dele - que 
em bnos incessantes caia o orvalho sempre do cu sobre ela! - e lhe suplico que lhe ministre educao 
virtuosa.  muito nova e de modesta e nobre natureza, esperando eu que ela saiba praticar a virtude, e 
que um pouquinho de amor lhe vote em considerao da me que o amou to ternamente como s do cu 
 sabido. O outro pedido que humildemente fao  que Sua Graa tenha piedade destas infelizes 
mulheres que durante tanto tempo me acompanharam, sempre dedicadas, na fortuna varivel, no 
havendo, posso afirm-lo - e nisso falsidade no poderei dizer - nenhuma delas que, por virtudes e 
beleza da alma, honestidade e nobre compostura no merea um marido de alto mrito. Que seja nobre, 
at, pois, em verdade, sero felizes os que as escolherem. Meu ltimo pedido  para os criados. Pobres 
so todos, mas de mim no pode tirar nunca a pobreza nenhum deles. Sejam-lhes pagos, pois, os 
ordenados, sem falta alguma, com algum acrscimo, como recordao de minha parte. Se um pouco mais 
de vida o cu me houvesse concedido, e recursos, nos teramos despedido melhor. Eis toda a carta, 
senhor. Por tudo quanto neste mundo tendes de caro, pela paz crist que desejais aos mortos, sede amigo 
destes coitados, insistindo junto do soberano, para que ele esta ltima justia me conceda. 
CAPCIO - Pelo cu, assim farei, ou despojar-me quero desta figura humana. 
CATARINA - Agradecida, muito digno senhor. Humildemente falai de mim a Sua Majestade. 
Dizei-lhe que j vai deixar o mundo o autor de seus cuidados demorados. Contai-lhe que eu o abenoei 
na morte, pois vou faz-lo. Tenho os olhos turvos. Adeus, senhor; Griffith, adeus. Pacincia, no, no 
saias ainda. Chama as outras; preciso ir para a cama. Estando eu morta, boa menina, trata-me com honra. 
Virginais flores pe no meu sepulcro, para que todos saibam que uma esposa casta eu fui at  morte. 
Embalsamai-me e exibi-me. Conquanto no rainha, como rainha quero que me enterrem, como filha de 
rei. No posso mais... 
(Saem, levando Catarina.) 
ATO V 
CENA I 
Londres. Uma galeria do palcio. Entram Gardiner, Bispo de Winchester, um pajem com um archote, 
que encontram Sir Toms Lovell. 
GARDINER - J  uma hora, menino? 
PAJEM - Neste instante acabou de bater. 
GARDINER - Uma hora dessas dicada deveria ser a nossas necessidades, no a diverses, momento 
para reparar as foras com salutar repouso, sem o tempo desperdiarmos. Sir Toms, boa noite. Para 
onde ides to tarde? 
LOVELL - Acaso viestes do rei, senhor? 
GARDINER - Sim, Sir Toms; deixei-o jogando uma partida de "primeiro" com o Duque de 
Suffolk.
LOVELL - Vou procur-lo antes de ir me deitar. De vs despeo-me. 
GARDINER - No, no, Sir Toms Lovell. Que acontece? Revelais muita pressa. Se puderdes - no 
havendo mal nisso - alguma coisa contai ao vosso amigo, do negcio que to tarde vos prende. Esses 
assuntos que passeiam no jeito dos espritos,  meia-noite, so de natureza mais estranha do que a dos 
que de dia procuram seu despacho. 
LOVELL - Muito afeto vos dedico, milorde, e ouso confiar-vos segredo de mais peso que estas 
minhas ocupaes. A soberana se acha em trabalho de parto e em grande risco;  o que dizem. Receio 
que sucumba. 
GARDINER - Oro ferventemente pelo fruto que ela carrega, para que a bom termo venha a nascer e 
viva. Mas, quanto  rvore, Sir Toms, v-la quero sem razes. 
LOVELL - Capaz me sinto de dizer amm. Porm diz-me a conscincia que ela  uma criatura 
bonssima, senhora de valor, que merece nossos votos. 
GARDINER - Porm senhor, senhor! Prestai-me ouvidos, Sir Toms. Sois fidalgo do meu jeito. Sei 
que sois muito sbio e religioso, mas deixai que vos diga: nunca, nunca h de isto acabar bem. No, Sir 
Toms, podeis acreditar-me, enquanto Cranmer e Cromwell, as mos dela, juntamente com ela no 
dormirem no sepulcro. 
LOVELL - Ora vos referistes aos dois homens mais notveis do reino. Quanto a Cromwell, alm de 
auferidor do real tesouro, foi nomeado arquivista e secretrio de Sua Majestade, sem contarmos que se 
acha mesmo no momento azado de ter novos encargos. O arcebispo  a lngua e a mo do rei; quem 
ousaria contra ele pronunciar uma s slaba? 
GARDINER - H, sim, quem o ouse, Sir Toms; eu prprio me arrisquei a expressar o pensamento. 
Hoje mesmo, senhor, posso dizer-vos, inculquei nos senhores do Conselho a idia de que ele  - pois o 
conheo como tal, o que todos tambm sabem - um arqui-hertico, uma pestilncia que o pas todo 
infecta. Comovidos com o que lhes disse, ao rei falaram logo, e este, do alto de sua grande graa, dos 
seus reais cuidados, pressentindo os terrveis perigos que lhe expunham nossas razes, ouviu nossos 
queixumes e convocou para amanh bem cedo a reunio do Conselho.  erva daninha, Sir Toms, que 
precisa ser cortada. Mas estou vos detendo muito tempo. Boa noite, Sir Toms. 
LOVELL - Muito boas noites. Ainda e sempre vosso servidor. 
(Saem Gardiner e o pajem.) 
(Entram o rei e Suffolk.) 
REI HENRIQUE - Carlos, deixemos de jogar por hoje. No me concentro; sois por demais forte. 
SUFFOLK - Senhor, nunca antes de hoje eu vos vencera. 
REI HENRIQUE - Sim, raras vezes, Carlos, e assim mesmo quando me distraa na partida. Lovell, 
ento? H alguma novidade da parte da rainha? 
LOVELL - Pessoalmente no lhe dei a mensagem que mandastes, mas por uma de suas camareiras 
fi-la chegar a ela, que em resposta me disse que a rainha humildemente vos agradece e pede a Vossa 
Alteza rezar por ela com fervor agora. 
REI HENRIQUE - Que disseste? Eu, rezar por ela? Como! Est sentindo dores? 
LOVELL - Pelo menos, foi o que disse a sua camareira, havendo acrescentado que suas dores  dor 
da morte mesma quase igualam. 
REI HENRIQUE - Pobre senhora! 
SUFFOLK - Possa Deus do fardo alivi-la com pouco sofrimento, porque se alegre Vossa Majestade 
com a vinda de um herdeiro. 
REI HENRIQUE -  meia-noite, Carlos; vamos dormir. Em tuas preces no te esqueas de minha 
pobre esposa. Deixa-me s, pois tenho pensamentos que no vo bem na companhia de outrem. 
SUFFOLK - So meus votos que Vossa Majestade tenha uma noite calma. Hei de lembrar-me da
minha bondosssima rainha nas minhas oraes. 
REI HENRIQUE - Boa noite, Carlos. 
(Sai Suffolk.) 
(Entra Sir Antonio Denny.) 
Ento, senhor: que  que h? 
DENNY - Trouxe milorde arcebispo, senhor, como o ordenastes. 
REI HENRIQUE - Como! Canturia? 
DENNY - Sim, meu bom senhor. 
REI HENRIQUE -  certo,  certo. E onde est ele, Denny? 
DENNY - Aguarda o bom prazer de Vossa Alteza. 
REI HENRIQUE - Faze-o entrar. 
LOVELL ( parte) -  sobre aquele assunto de que o bispo falou: cheguei a tempo. 
(Volta Denny com Cranmer) 
REI HENRIQUE - Deixai a galeria. 
(Lovell faz meno de ficar.) 
No vos disse? Retirai-vos! 
(Saem Lovell e Denny.) 
(CRANMER - Bastante medo sinto. Por que franze de assim o sobrecenho? O aspecto  do terror. 
Algo vai mal. 
REI HENRIQUE Ento, milorde, desejais que eu diga porque vos fiz chamar? 
CRANMER (ajoelhando-se.) - Ficar s ordens de Vossa Alteza  meu dever de sdito. 
REI HENRIQUE - Levantai-vos, vos peo, meu gracioso Lorde de Canturia. Vinde; juntos vamos 
dar uma volta. Tenho novas para contar-vos. Vamos: dai-me a mo. Ah! meu bondoso lorde,  com 
tristeza que vos falo; compunge-me o que tenho de vos dizer. Ouvi recentemente - contrariado, 
asseguro-vos - bastantes queixas de vs.  certo,  o que vos digo, milorde: queixas graves, que, tomadas 
em considerao, ns e o Conselho decidimos que  nossa frente visseis esta manh. E como estou 
convicto de que justificar-vos cabalmente no podereis, enquanto organizado no for o questionrio a 
que resposta tereis de dar, ser preciso agora que tenhais pacincia muita, para na Torre preparar vossa 
morada. Por serdes par do reino,  necessrio que eu faa, como fao; do contrrio, no haver ningum 
que se resolva contra vs a depor. 
CRANMER (ajoelhando-se) - Humildemente Vos agradeo. Mui feliz me sinto por se me oferecer 
esta excelente ocasio de no crivo ser passado, vindo a ficar, assim. todo o meu trigo separado do joio, 
pois  certo que no h quem como eu - um pobrezinho - se veja alvo das lnguas caluniosas. 
REI HENRIQUE - Bom Canturia, levanta-te; a lealdade, a integridade que te  prpria, criaram raiz 
profunda em ns, em teu amigo. D-me tua mo; levanta-te; passemos, por obsquio. Mas, pela Me de 
Deus, que espcie de homem sois? Eu estava certo, milorde, de que haveis de pedir-me que eu me desse 
ao trabalho de levar-vos  presena de vossos inimigos, e mais: de vos ouvir em liberdade. 
CRANMER - Augusto soberano, s me apoio na minha honestidade e em meu direito. Se eles me 
abandonarem, juntamente com meus inimigos cantarei triunfo, por ver-me derrubado, pois sem eles 
careo de valor. No tenho medo de quanto contra mim possa dizer-se. 
REI HENRIQUE - No sabeis o que todo o mundo sabe, qual seja a vossa situao no mundo? So 
numerosos vossos inimigos, e no pequenos; suas artimanhas so de igual importncia, sendo certo que 
nem sempre a justia de uma causa sentena favorvel assegura. Com que facilidade almas corruptas 
podem peitar escravos corrompidos, para em juzo deporem? Fatos desses j tm acontecido. Muito 
fortes so vossos inimigos, de maldade que ao seu poder se iguala. Estais bem certo de que nisso de 
falsas testemunhas vireis a ter mais sorte do que o Mestre de que ministro sois, durante o tempo em que
passou pela mesquinha terra? Vamos, vamos! julgais seja possvel sem perigo saltar um precipcio, e 
procurais a prpria destruio. 
CRANMER - Que Deus e Vossa Majestade amparem minha inocncia, pois de outra maneira fugir 
no poderei desta armadilha. 
REI HENRIQUE - Criai coragem. No iro mais longe do que eu lhes permitir. Tranqilizai-vos sem 
que pela manh  frente deles deixeis de aparecer. Se porventura vossa priso pedirem, em virtude das 
queixas contra vs acumuladas, no deixeis de usar grandes argumentos de poder persuasrio, com a 
veemncia que a ocasio vos ditar. Se vosso esforo no vos der resultado, apresentai-lhes este anel e 
apelai para ns prprio, na frente deles todos. Mas que  isso. A chorar o bom homem! Por minha honra, 
 honesto. Pela santa Me de Deus,  de corao leal, posso jur-lo. Alma melhor no se acha no meu 
reino. Ide embora e fazei como vos disse. 
(Sai Cranmer.) 
s lgrimas a fala lhe abafavam. 
(Entra uma velha dama.) 
GENTIL-HOMEM (dentro) - Voltai! Que ides fazer? 
VELHA DAMA - No voltarei; a notcia que eu tenho para dar-lhe deixa cortes o meu atrevimento. 
Que os bons anjos agora pairem sobre tua real cabea e com suas asas benditas te protejam. 
REI HENRIQUE - Leio tua mensagem no teu rosto. Deu-se o parto? Dize depressa "sim" e que  um 
menino. 
VELHA DAMA - Sim, sim, meu soberano; e que menina! Que ora e sempre a abenoe o Deus do 
cu.  uma menina, que vos assegura para o futuro um filho. Vossa esposa, senhor, de vs reclama uma 
visita, para que conheais essa estrangeira. Parece-se convosco como duas cerejas de um s galho. 
REI HENRIQUE - Lovell! Lovell! 
(Volta Lovell.) 
LOVELL - Senhor? 
REI HENRIQUE - Dai-lhe cem marcos. Vou depressa visitar a rainha. 
(Sai.) 
VELHA DAMA - S cem marcos? Por esta luz, mereo mais. A um criado comum  que se paga 
desse modo. Hei de obter mais, ou brigarei com ele. Para ganhar to pouco foi que eu disse que ela era a 
cara dele? Hei de obter mais; do contrrio, desdigo-me. Batamos com fora, enquanto o ferro est 
vermelho. 
(Saem.) 
CENA II 
Um corredor que vai dar  Cmara do Conselho. Entra Cranmer; pajens e oficiais, de p. 
CRANMER - Penso que no estou nada atrasado. No entanto, o gentil-homem que mandado me foi 
pelo Conselho, urgentemente pediu que me apressasse. Qu! Fechado? Que significar tal coisa? Ol! 
Quem  que est de guarda? 
(Entra o porteiro.) 
Conheceis-me? 
PORTEIRO - Sim, milorde, conheo-vos; mas hoje no vos posso ajudar. 
CRANMER - Por qu? 
PORTEIRO - Foroso ser que Vossa Graa aguarde o aviso. 
(Entra o Doutor Butts.)
CRANMER - Est bem. 
BUTTS - Em tudo isto h s maldade. Fico contente por haver passado por aqui sem tropeo. O 
soberano vai ser logo informado. 
CRANMER ( parte) -  Butts, o mdico do rei. Quando passava, que terrvel olhar me dirigiu! O 
cu permita que com isso sondado no tivesse minha infelicidade. Com certeza concebido foi tudo Por 
pessoas que me tm dio - queira Deus mudar-lhes de todo o corao nunca a malcia provoquei de 
ningum - para humilhar-me. Deviam ter vergonha de deixar-me  espera. assim, na porta, um 
conselheiro como eles, entre pajens e lacaios! Mas faa-se a vontade deles todos. Paciente, esperarei. 
(O rei e Butts aparecem em uma janela, no alto.) 
BUTTS - A Vossa Graa quero mostrar um quadro muito estranho. 
REI HENRIQUE - Que quadro, Butts? 
BUTTS - Decerto Vossa Graa coisa igual no tem visto muitas vezes. 
REI HENRIQUE - Com a breca! Onde  que h isso? 
BUTTS - Ali, milorde; o alto posto ali vedes de Sua Graa de Canturia, de guarda ora postado 
diante da porta, entre serventes, pajens e oficiais. 
REI HENRIQUE - Ah!  certo.  ele mesmo.  assim que eles se acatam mutuamente?  bom que 
ainda haja algum acima deles. Pensei que eles tivessem ainda um pouco de honestidade, ou mesmo 
algum resqucio de decoro, que no lhes permitisse deixar um homem da posio dele e to chegado a 
ns, numa antecmara, na expectativa apenas da vontade de Suas Senhorias, como um criado carregado 
de embrulhos. Pela Santa Maria, Butts, isso  procedimento de gente sem carter. Mas deixemo-los; 
corramos as cortinas; ainda havemos de ouvir falar sobre isso mais de perto 
(Saem.) 
CENA III 
A Cmara do Conselho. Entram o Lorde Chanceler, o Duque de Suffolk o Duque de Vorfolk, o Conde 
de Surrey, Lorde Camareiro, Gardiner e Cromwell. O chanceler se coloca na ponta de cima da mesa,  
esquerda, ficando acima dele vazia uma cadeira, Como que destinada para o Arcebispo de Canturia. Os 
demais se sentam por ordem, de ambos os lados da mesa. Cromwell, na ponta de baixo, como secretrio. 
O porteiro, em seu lugar. 
CHANCELER - Abri a audincia, mestre secretrio. Que nos traz hoje aqui? 
CROMWELL - Se Vossas Honras me permitem, o principal assunto diz respeito  Sua Graa de 
Canturia. 
GARDINER - J foi ele informado? 
CROMWELL - J. 
NORFOLK - Quem se acha  espera, a? 
PORTEIRO - Fora, meus nobres lordes? 
GARDINER - Sim. 
PORTEIRO - Milorde arcebispo; h meia hora vossas ordens aguarda. 
CHANCELER - Ento, que entre. 
PORTEIRO - Vossa Graa j pode entrar na sala. 
(Cranmer entra e se aproxima da mesa do Conselho.) 
CHANCELER - Meu bom lorde arcebispo,  com tristeza que eu aqui me acho e vejo esta cadeira 
privada de seu dono. Mas ns todos somos homens, de natureza frgil e sujeitos  carne; muito poucos 
sero anjos. Assim, pela fraqueza levado e a irreflexo, vs que a ns todos deveis dirigir, vs
desmandastes, gravemente, ofendendo o soberano, depois, as leis, e enchendo o reino todo, pelas 
prdicas prprias e dos vigrios - j soubemos de tudo isso de doutrinas recentes, muito estranhas e 
perigosas, puras heresias, que, se no forem reformadas, podem produzir grande dano. 
GARDINER - Nobres lordes, urge que essa reforma seja pronta. Quem quer domar cavalos pelas 
mos no os leva, porque dceis a ficar venham, mas lhes tapa a boca com freio resistente e a espora 
calca nos flancos at que eles obedeam. Se permitirmos - por condescendncia, por piedade pueril, pelo 
conceito, to-s, de um homem - que se alastre doena to contagiosa: ento, adeus remdio! Quais 
sero do desdio as conseqncias? Revoltas, comoes, o Estado todo contaminado. Caro testemunho 
disso mesmo nos do nossos vizinhos da alta Alemanha;  mui recente a coisa que a memria dorida nos 
compunge. 
CRANMER - Lutei at hoje, meus bondosos lordes, assim na profisso como na vida, no sem 
grande trabalho, porque as minhas doutrinas e o decurso poderoso de minha autoridade, sempre juntos a 
mesma via certa percorressem. Sempre o bem tive em mira. No existe - falo, milordes, com sinceridade 
- criatura que em conscincia e no exerccio de sua profisso mais dio sinta do que eu aos destruidores 
da paz pblica. Permita o cu que nunca o soberano venha a encontrar menos fiis vassalos. Os que 
vivem da inveja e da malcia tortuosa ousam morder os mais prestantes. Suplico instante a Vossas 
Senhorias que nesta causa os meus acusadores, sejam quais forem, sejam confrontados comigo e falar 
possam livremente. 
SUFFOLK - No, no, milorde; sois um conselheiro; assim, ningum se atrever a acusar-vos. 
GARDINER - Visto termos assuntos de mor peso, milorde, vamos ser convosco breves.  parecer de 
Sua Alteza e nosso que, visando  vantagem do processo, sejais daqui levado para a Torre, onde, 
voltando vs a ser um simples particular, vereis que muita gente contra vs depor com ardimento maior 
do que esperais, receio-o muito. 
CRANMER - Agradecido, meu bom Lorde de Winchester, sempre vos revelastes meu amigo. Por 
vosso parecer, sereis a um tempo jurado e juiz. Sois muito generoso. Percebo vosso intento: arruinar-me. 
Doura e amor, milorde, mais assentam a um sacerdote do que a v cobia. Voltai a conquistar almas 
transviadas; no repilais nenhuma. Porque eu possa purificar-me, todo o peso ponde sobre minha 
pacincia; to pequeno trabalho isso h de dar-me, como escrpulo vos causa praticar o mal amide. 
Poderia dizer muito mais coisas, mas o respeito a vosso ministrio me obriga a moderar-me. 
GARDINER - No, milorde! A verdade, milorde, pura e simples  que sois um sectrio. Vossas 
glosas to polidas, a quantos vos compreendam no passam de palavras sem substncia. 
CROMWELL - Milorde de Winchester sois muito duro; permiti que vos diga. Os indivduos de tal 
nobreza, ainda que faltosos, respeito sempre merecer deviam por tudo quanto foram. E crueldade fazer 
presso em quem j est caindo. 
GARDINER - Peo perdo, meu caro secretrio; mas de quantos aqui na mesa se acham, sois o 
ltimo a poder manifestar-se. 
CROMWELL - Por qu, milorde? 
GARDINER - Pois no sei, acaso, que sois adepto dessa nova seita? No sois limpo. 
CROMWELL - Limpo no sou? 
GARDINER - Repito-o: no sois limpo. 
CROMWELL - Quem dera que a metade disso fsseis honesto, que ento preces vos seguiriam, no 
o medo, apenas. 
GARDINER -- Nunca me esquecerei dessa linguagem desaforada. 
CROMWELL - Nem de vossa vida desaforada 
CHANCELER -  muito!  muito! Basta milordes. Que vergonha! 
GARDINER - Pronto.
CROMWELL - Pronto. 
CHANCELER - Voltando a vs, milorde, decidido, quero crer, foi por todos, que levado para a 
Torre sejais sem mais delongas. onde deveis ficar at sabermos o que decide o rei. Concordam todos, 
milordes? 
TODOS - Concordamos. 
CRANMER - No h outro caminho de clemncia?  inevitvel que eu seja conduzido para a Torre? 
GARDINER - Que outro caminho achar pretendereis? Sois enfadonho em demasia. Venham alguns 
guardas da, para lev-lo. 
(Entra um guarda.) 
CRANMER -- Para levar-me? Dais-me o tratamento que se d aos traidores? 
GARDINER - Recebei-o e at  Torre o levai com segurana. 
CRANMER - Meus bons lordes, parai. pois ainda tenho algo para dizer. Olhai para isto, meus bons 
senhoras. Pela s virtude deste anel, eu retiro minha causa das garras destes homens e a confio a um mais 
nobre juiz: o rei meu mestre. 
CHANCELER -  o prprio anel do rei. 
SURREY - Sim, no  falso. 
SUFFOLK - Sim, pelo cu,  o verdadeiro. A todos eu vos disse, no instante de quererdes tocar neste 
penhasco perigoso, que viria acabar por esmagar-nos. 
NORFOLK - Acreditais, milordes, que o monarca permitir que no dedinho, ao menos, deste homem 
ns toquemos? 
CAMAREIRO - No h dvida;  mais que certo. E quanto a vida dele no vale junto ao rei! S 
desejara poder sair decentemente disto. 
CROMWELL - Tinha um pressentimento, quando fbulas e acusaes fictcias reunia contra tal 
homem - cuja honestidade somente o diabo inveja e seus discpulos - que ativeis o fogo que vos 
queima. Agora, suportai-o. 
(Entra o rei, lana-lhes um olhar severo e se assenta.) 
GARDINER - Terrvel soberano, como todos ao cu agradecemos diariamente por brindado nos ter 
com um tal prncipe, no s bondoso e sbio: religioso; um rei que com a mxima humildade da Igreja 
faz o principal objeto da prpria honra, e que para dar mais fora a esse dever sagrado, com respeito 
piedoso comparece pessoalmente ao nosso tribunal, porque sabendo fique da luta que se trava entre ela e 
seu grande ofensor. 
REI HENRIQUE - Sempre mostrastes, Bispo de Winchester, grande habilidade no improvisar 
brilhantes elogios. Mas sabei que no vim para ouvir essas adulaes de frente. So vazias por demais, 
muito finas, porque possam mascarar a maldade. Mas com isso no me atingis. Adulador cozinho 
pareceis, que pretende conquistar-me s com mexer a lngua. Porm faas de mim o juzo que fizeres, 
tenho-te por uni sujeito mau e sanguinrio. 
(A Cranmer.) 
Senta-te, meu bom Cranmer. S desejo ver quem tem a ousadia, o atrevimento de contra ti alar um 
s dedinho. Por quanto h de sagrado, melhor fora morrer de inanio que um s momento pensar que 
este lugar no te pertence. 
SURREY - Se a Vossa Graa for do agrado... 
REI HENRIQUE - No! no  do meu agrado! Imaginara que tinha em meu Conselho homens 
sisudos, de algum discernimento, mas no vejo nenhum como o quisera. Achais decente deixar que este 
homem, este bondoso homem - dentre vs muito poucos esse ttulo podiam merecer - que este honesto 
homem ficasse  espera diante de uma porta como um srdido criado? Uma pessoa da vossa posio? 
Oh, que vergonha! Estveis obrigados pelas minhas instrues a esquecer-vos de vs prprios? Dei-vos
poderes para que o julgsseis no como a um criado, mas um conselheiro. Entre vs vejo muitos que sem 
dvida - mais por malcia do que honesto zelo - s mais terrveis provas o poriam, se viessem para isso 
ter ensejo. Mas tal no se dar, por certo, enquanto eu estiver com vida. 
CHANCELER - Queira Vossa Graa, meu mui temido soberano, deixar que a todos ns eu 
justifique. A priso dele foi deliberada - se h boa f nos homens - mais para ele mesmo justificar-se 
plenamente perante o mundo do que por malcia, ao menos eu outro pensar no tive. 
REI HENRIQUE - Bem, bem. Ento honrai-o, meus senhores; dai-lhe, acolhendo-o, todo o 
tratamento, que ele o merece. A seu favor s digo que se um rei devedor pode sentir-se com relao a um 
sdito, eu me sinto desse modo a ele preso no somente pela sua afeio, mas por seus prstimos. Assim, 
deixai de me criar tropeos. Abraai-o, abraai-o! Sede amigos. Oh! por pudor! Milorde de Canturia, 
quero fazer-vos um pedido e espero que no mo refuseis: ainda se encontra por batizar uma gentil 
menina. Vs sereis o padrinho, respondendo pelo futuro dela. 
CRANMER - O mais potente monarca vivo ficaria ufano de uma to subida honra. Como posso 
merec-la, to pobre e humilde sdito? 
REI HENRIQUE - Vamos, vamos, milorde; estais querendo poupar vossas colheres. Tereis duas 
companheiras para esse ato: a velha Duquesa de Norfolk e a Marquesa de Dorset. So do vosso agrado? 
Mais uma vez concito-vos, milorde de Winchester: abraai e amai este homem. 
GARDINER - De todo o corao e amor fraterno. 
CRANMER - O cu  testemunha de quo ledo me deixa esta palavra. 
REI HENRIQUE - Bom amigo! Essas alegres lgrimas revelam teu fido corao. A voz do povo 
vejo em ti confirmada.  nestes termos: "Fazei ao Lorde de Canturia alguma partida de mau gosto e um 
grande amigo ganhareis para sempre". Vamos, vamos, senhores; perdemos muito tempo. J no vejo o 
momento de fazermos uma crist da minha pequerrucha. Unidos quero ver-vos at  morte. Honrados 
ficareis; eu, sempre forte. 
(Saem.) 
CENA IV 
Ptio do palcio. Barulho e tumulto por trs da cena. Entram o porteiro e seu ajudante. 
PORTEIRO - No parais com esse barulho, marotos? Pensais que a corte seja jardim de urso? 
Rsticos, parai com esse falatrio! 
UMA VOZ (dentro) - Bom mestre porteiro, eu fao parte da despensa. 
PORTEIRO - Pertenceis mas   forca, para serdes enforcado, biltre. Isto aqui  lugar para tamanhos 
urros? Arranje-me uma dzia de varas de macieira, mas bem fortes, que estas no passam de gravetos. 
Vou fazer-vos ccegas na cabea. Tereis de ver batizados. Grosseires! viestes procurar aqui cerveja e 
bolos? 
AJUDANTE - Tende pacincia, meu senhor; a menos que usssemos canhes, to impossvel nos 
ser dispers-los neste instante como obrig-los a dormir na cama na primeira manh do ms de maio. 
Isso nunca acontecer. Mais fcil do que expuls-los nos seria a igreja de So Paulo abalar. 
PORTEIRO - De que maneira conseguiram entrar? 
AJUDANTE - Como sab-lo? Como  que a mar sobe? Tanto quanto distribuir pauladas foi 
possvel a um pau de quatro ps - os pobres restos ainda podeis ver - no poupei nada, senhor. 
PORTEIRO - Nada fizestes;  isso mesmo. 
AJUDANTE - No sou Sanso, nem Guido, nem Colbrando, para a todos ceifar. Mas se um, que 
fosse, eu poupei, que tivesse uma cabea boa para alvo, seja moo ou velho, ele ou ela, cornudo ou
corneador, que nunca mais um bom assado eu veja, no que jamais consentirei, nem mesmo por uma vaca 
inteira. Deus a livre! 
UMA VOZ (dentro) - Estais ouvindo, mestre porteiro? 
PORTEIRO - No demora, j chego a, meu bom senhor velhaco. Toma conta da porta, maroto. 
AJUDANTE - Que quereis que eu faa? 
PORTEIRO - Que tereis de fazer, seno derrub-los s dzias? Acaso isto aqui  Moorfield, para 
fazerem uma parada? Ou ter chegado a esta corte alguma ndia do estrangeiro, com uma grande cauda, 
para que as mulheres nos venham sitiar dessa maneira? Deus me abenoe! Quanta sem-vergonhice est 
acontecendo atrs das portas! Por minha conscincia de cristo, este batizado vai dar nascimento a um 
milheiro de outros batizados; vai haver aqui hoje pais e padrinhos, tudo junto. 
AJUDANTE - Tanto maiores sero as colheres, senhor. Ali perto da porta h um sujeito que pelo 
rosto deve ser um caldeireiro, porque, por minha conscincia, traz no nariz vinte dias de cancula. Todas 
as pessoas que se acham junto dele j passaram a linha; no precisam de outra penitncia. Por trs vezes 
bati na cabea desse drago de fogo, e trs vezes seu nariz disparou para o meu lado; acha-se ali como 
um morteiro, para bombardear-nos. Ao lado dele est a mulher de um merceeiro, de muito pouco 
esprito, que tanto deblaterou contra mim, que lhe caiu da cabea a sopeira de buracos, tal foi a 
conflagrao que eu fiz despertar na repblica. De uma feita eu errei o meteoro e acertei na tal mulher, 
que comeou a gritar: "Cacete, aqui!" Ento percebi de longe que vinham em seu socorro uns quarenta 
bastoneiros, a esperana de Strand, onde ela tinha seus quartis. Eles atacaram; eu resisti com galhardia; 
por ltimo, vieram para cima de mim com cabos de vassoura. Continuei firme. Mas, de sbito, por trs 
deles, uma bateria de garotos, pequenos atiradores, dispararam para o meu lado tamanha saraivada de 
pedras, que eu tive de resguardar a honra e ceder-lhes o campo. O diabo estava no meio deles, por minha 
f; tenho certeza disso. 
PORTEIRO - So os rapazes que trovejam no teatro e se batem por pedaos de mas, e que nenhum 
auditrio pode suportar a no ser o da Tribulao de Towerhill ou os freqentadores de Limehouse, seus 
dignos confrades. j pus um par deles no Limbo Patrum, onde tero de danar estes trs dias, sem contar 
a sobremesa de duas chibatadas que ainda tero de receber. 
(Entra o Lorde Camareiro.) 
CAMAREIRO - Santo Deus! quanta gente aqui reunida! E sempre a chegar mais de toda parte! At 
parece feira. Onde se metem esses porteiros, esses preguiosos? Belo trabalho, amigos, consentindo que 
essa gentalha entrasse. Todos eles so vossos fiis amigos dos subrbios? Muitos lugares vo sobrar, 
decerto, para as senhoras, quando retornarem do batizado. 
PORTEIRO - Como v Vossa Honra, somos homens, apenas. Tudo quanto foi possvel fazer sem 
que em pedaos nos deixassem, fizemos. Um exrcito no poder cont-los. 
CAMAREIRO - Por minha honra, se o rei me censurar por qualquer coisa, hei de pr-vos em ferros, 
e isso logo, cingindo-vos as frontes, por castigo, com uma multa redonda. Sois mandries; esvaziais os 
odres, quando tendes tanta coisa a fazer! Ouvi: trombetas! De retorno j esto do batizado. Rompei a 
multido e abri caminho porque passe o cortejo livremente; se no, hei de encontrar algum convento em 
que possais vos divertir dois meses. 
PORTEIRO - Ala para a princesa! 
AJUDANTE - Ol, seu grandalho! sa do caminho, se no quiserdes que eu vos d dor de cabea. 
PORTEIRO - E vs a, de jaqueta de camelo: descei da grade, se no quiserdes que eu vos empale 
com um desses varapaus. 
(Saem.) 
CENA V
O palcio. Entram trombeteiros, tocando uma fanfarra; depois, dois vereadores, o Lorde Maior, o 
pregoeiro, Cranmer, o Duque de Norfolk com o seu basto de marechalato, o Duque de Suffolk, dois 
nobres com duas grandes bacias para os presentes do batizado; depois, quatro nobres carregando um 
baldaquim, sob o qual vem a Duquesa de Norfolk, como madrinha, que carrega a criana envolvida em 
um rico manto; uma dama da corte sustenta a cauda de seu vestido; depois vem a Marquesa de Dorset 
como segunda madrinha, e outras damas da corte. O cortejo atravessa a cena e o pregoeiro fala. 
PREGOEIRO -  cu! do alto de tua infinita bondade envia uma vida prspera, longa e sempre feliz 
para a muito alta e poderosa Princesa da Inglaterra, Elisabete! 
(Fanfarra. Entra o rei com seu squito.) 
CRANMER (ajoelhando-se.) - A Vossa Graa real e  boa rainha eis a minha orao e a dos meus 
nobres companheiros: que todas as venturas, toda a alegria que o cu tem de parte para a dita dos pais, a 
todo instante caiam sobre esta mui graciosa dama. 
REI HENRIQUE - Meu bom Lorde Arcebispo, agradecido. Qual  o nome dela? 
CRANMER - Elisabete. 
REI HENRIQUE - Levantai-vos, senhor. 
(O rei beija a menina.) 
Com este beijo recebe minha bno. Deus te ampare; nas mos dele te entrego. 
CRANMER - Amm. 
REI HENRIQUE - Minhas nobres comadres, fostes prdigas. De corao vos agradeo. O mesmo 
far esta senhorita, quando o ingls dela for suficiente. 
CRANMER - Permiti-me falar, senhor, que o cu  que me inspira, sem que ningum como lisonja 
tome minhas palavras, que h de o tempo dar-lhes plena confirmao. Esta real criana - que o cu a 
ampare sempre! - embora ainda no bero se ache a este pas promete bnos inumerveis, que maduras 
ho de ficar com o tempo. H de tornar-se - dos presentes mui poucos ho de vida ter para ver tal coisa - 
inigualvel modelo para todos os monarcas de seu tempo e dos tempos porvindoiros. Nunca a Rainha de 
Sab foi vista mais vida e sequiosa de virtude e de sabedoria do que esta alma pura h de revelar-se. As 
graas todas que as criaturas reais sempre exornaram e as virtudes que aos bons servem de adorno nela 
sero dobradas. A verdade vai nin-la; os celestes e sagrados pensamentos sero seus conselheiros. Ser 
temida e amada ao mesmo tempo; os seus a abenoaro; seus inimigos ho de tremer como no campo o 
trigo, de tristeza cair deixando a fronte. Crescer o bem com ela; em seu reinado todos ho de comer 
tranqilamente, no seu lar prprios o que plantado houverem, cantando para todos os vizinhos belas 
canes de paz. Reconhecido ser Deus em verdade; os que a cercarem, por ela guiados, entraro na via 
direita da honra, assim engrandecendo, no por meio de sangue. Nem com ela h de acabar a paz. Do 
mesmo modo que essa ave prodigiosa, a virgem fnix, das cinzas, ao morrer, engendra a herdeira tal 
como ela, h de assim, Elisabete deixar a algum seus peregrinos dotes - quando o cu a tirar desta 
caligem - que das cinzas sagradas da honra dela como astro se alar a igual altura, fixo a se mantendo. 
O amor, o medo, o sossego, a verdade, a plenitude que tiverem servido a esta criana passaro a esse 
algum, indo apegar-se-lhe como a vinha ao tutor. Onde o brilhante sol do cu irradiar, a glria dele 
brilhar, a grandeza de seu nome novas naes fundando. H de florir; e, como o cedro da montanha, os 
ramos estender para a plancie em torno. Nossos bisnetos ou tataranetos ho de ver isso e ao cu entoar 
louvores. 
REI HENRIQUE - Maravilhas nos contas. 
CRANMER - Para a dita da Inglaterra ser princesa idosa. Muitos dias ver, mas nenhum dia sem 
um feito qualquer para coro-lo. Oh! desejara no saber mais que isso. Mas ter de morrer; sim, porque 
os santos a querem ainda virgem; como lrio imaculado baixar  terra e o mundo todo chorar por ela.
REI HENRIQUE -  milorde arcebispo! Homem de novo me fizeste. Nunca, antes do nascimento 
desta criana, tivera eu qualquer coisa. Esta inefvel profecia encantou-me de tal forma que, ao me 
encontrar no cu, ver s desejo o que esta criana faz e entoar louvores ao meu Criador. A todos 
agradeo. Meu bom Lorde Maior, a vs e aos vossos bons colegas declaro-me obrigado. A presena de 
todos me honrou muito; haveis de achar-me sempre agradecido. Sigamos, meus senhores; a rainha tereis 
de ver. Ela h de agradecer-vos, que, do contrrio, ficaria doente. No cuide ora ningum de ir para casa. 
Hoje aqui todos ficaro, porque esta menina o dia vai encher de festa. 
(Saem.) 
EPLOGO 
Aposto dez contra um em como a pea no cumpriu para todos a promessa. Uns aqui vieram s por 
desfastio, para dormir um ato ou dois a fio, tendo eu receio, assim, que despertado tivessem com as 
trombetas. Nesse estado, no admira que digam: "Bem fraquinha!" Outros desejariam ver na espinha 
toda a cidade e, assim: "Que espirituoso!" gritar por entre palmas; o que  ocioso, pois no fizemos tal. 
Dessa maneira, receio que a acolhida lisonjeira com que eu contava para nossa pea dependa agora da 
alegria expressa das nossas boas damas de virtude. Uma assim lhes mostrei. Se de atitude mudarem, pois, 
e rirem, afirmando: "At que no foi m!" j estou jurando que, dentro de um minuto, os cavalheiros 
aplausos nos daro muito fagueiros, pois fora indcio ele viciosas almas patear, quando as senhoras 
pedem palmas.

